Entrevista

Ocupação de territórios nativos altera a alimentação de povos indígenas.

Por Maíra Bueno | 10/08/2017.

Naine Terena é pesquisadora e mora em Cuiabá. Radialista, com mestrado em Artes e doutorado em Educação, Naine atua com mídias e cultura indígena. Seu povo, Terena, forma a terceira maior população indígena do Brasil. Aqui ela reflete sobre o que o alimento representa para o povo Terena e como as transformações nos seus territórios vem afetando a alimentação tradicional.


P.A - Como o povo Terena se relaciona com o alimento?

O povo Terena é um povo que planta, é um povo agricultor. Então quando a gente vai para a aldeia, é muito forte ver as roças familiares ainda. Minha mãe foi pra lá recentemente. Toda vez que ela volta, ela sempre traz muita comida de lá. Eles sempre mandam frutas, verduras, o que tem na época. E é muito forte observar que a produção de alimentos é tão rica, que quando minha mãe vai para lá, eles mandam para os meus filhos abacate, laranja, milho, o que tiver. É uma distância considerável para carregar tudo isso da aldeia até Cuiabá, mas eles sempre mandam!


P.A - Faz tempo que você mora na cidade? Qual é a diferença entre a alimentação na cidade e a alimentação na aldeia?

Eu cresci na cidade. Minha família paterna é de Cuiabá. Meu pai era indigenista da FUNAI e minha mãe, que é Terena, era enfermeira e acompanhava meu pai nas aldeias por onde passavam. Minha mãe é da aldeia Limão Verde, no município de Aquidauna, toda a família materna é de lá. Quando meu pai deixou a FUNAI e foi trabalhar na Universidade Federal de Mato Grosso, eles se mudaram para Cuiabá. A alimentação costumava ser bem diferente na cidade e na aldeia. Mas nesses últimos anos tem tido muita cesta básica na aldeia e a alimentação já não é tão diferente assim. É claro que tem a questão econômica. Na cidade temos a opção de escolher, mas só se tivermos dinheiro para comprar. Se optarmos por algo saudável na cidade temos que pagar e aqui é tudo muito caro. Nós não conseguimos manter um padrão de alimentação mais saudável se não tivermos como pagar.


P.A - Como é a cesta básica que vai para a aldeia?

Pelo o que eu tenho acompanhado, na cesta básica que vai para as aldeias tem arroz, feijão, óleo de soja... não tem alimentos que sejam específicos para os indígenas, pelo menos o que eu consegui ver até agora. As cestas não são diferenciadas. A vinda dos projetos sociais para as aldeias, em que as famílias recebem esses alimentos, esses projetos não fizeram uma adaptação dos alimentos para as comunidades. Então o que isso acarreta? O que a gente sempre conversa com as Terenas lá na aldeia? Sobre aumento do colesterol, diabetes... Tem muitos diabéticos na nossa aldeia hoje, pressão alta, tudo isso tem a ver com essa alimentação que está mais precária. Come-se muito pão... E a cesta básica tem um carência nutricional, não supre o necessário.


P.A - Quais são os alimentos tradicionais da aldeia que estão sendo substituídos pela cesta básica?

Geralmente, todos aqueles que não se consegue mais plantar: milho, mandioca, feijãozinho (um feijãozinho verde). Lá se plantava muito arroz antigamente, mas só agora estão voltando a plantar de novo. Está ficando cada vez mais difícil plantar porque está diminuindo a terra, não tem espaço suficiente. As caças também estão sendo substituídas, carne de caça pela carne de boi, frango, galinha. O pequi, que não é plantado, mas costumava-se encontrar solto, as verduras. E o trigo substituiu muito. Tudo vem com trigo, e é mais esse tipo de alimento que vem na cesta básica.


P.A - E como é a relação das populações que moram na aldeia com as cestas básicas? As populações gostam desses alimentos? Ou existe uma rejeição pelo fato de não serem tradicionais?

Tem um ciclo vicioso eu acho. Quando a gente tem um bebê, por exemplo, a pediatra fala: dê isso, dê aquilo, não dê o açúcar. Esse bebê vai comer tudo o que você der até o momento em que você oferecer o açúcar, que ele vai gostar. É assim com todo mundo! Quando você começa a experimentar outros sabores, esse outro sabor pode predominar em cima de alguns outros que já existiam. Então existe essa coisa do gostar, gostar de comer carne, agora, mais a carne de boi, os indígenas gostam de comer carne de boi, então acabam substituindo a caça (até porque em algumas situações não se tem mais caça). Comer macarrão... Esse é o plano do gostar e do que começa a entrar dentro do cotidiano e não sai porque se gosta.


P.A - Mas há uma discussão em torno dessa questão, por exemplo, se esses alimentos são adequados ou não para as comunidades?

Até então não se tinha acesso às informações de que alguns desses alimentos poderiam fazer mal à saúde dos indígenas. Hoje já existem profissionais, na área da saúde, principalmente, que estão muito preocupados com a incidência de doenças que essas comidas trazem. Então eles fazem campanhas, levam informações para as pessoas mais idosas, fazem encontros e reuniões para tratar da alimentação, segurança alimentar. Mas é complicado porque perspassa pela questão do gostar de comer também, pelo que eu tenho observado. E além da questão do gostar de comer outros alimentos, tem a questão da necessidade mesmo! A reeducação alimentar requer algumas orientações e alimentos que às vezes não estão disponíveis.


P.A - Há falta de alimentos?

Sim. O que se planta já não é mais suficiente. E quando não se consegue plantar o suficinte porque não tem mais terra para plantar, então aumenta o consumo do que vem da cidade, do sacolão. Vão no mercadinho comprar, isso é fato! Então a necessidade de terras é muito importante. O ritmo de vida dessas populações foi completamente alterado com a falta de terras, e cobrar que elas voltem a uma dieta anterior, sem a condições adequadas é difícil. Acho que foi no ano passado, teve um ritual em uma aldeia Xavante, um ritual de iniciação e saiu uma matéria no jornal mostrando que dentro do ritual tinha refrigerante, não sei se você viu...


P.A - Não, o que aconteceu?

Tradicionalmente, teria que ter tido uma bebida tradicional, mas não, tinha refrigerante. Aí a Folha de São Paulo, eu acho, fez uma matéria criticando que eles estavam tomando refrigerantes, que ia fazer mal e não sei o quê. E os Xavantes mandaram uma resposta para o jornal. Na resposta, eles falam justamente isso: que a aldeia é rodeada de fazendas de soja, que eles não conseguem caçar. E nem conseguem plantar, porque não tem terra suficiente para plantar. Hoje eles bebem refrigerante e usam no ritual. Nesse momento é assim. Pode ser que em outro momento o refrigerante saia da alimentação deles também. É uma questão bem difícil, porque tudo gira em torno da questão do acesso à terra.


P.A - O que a terra significa para os indígenas?

Sem terra, não existe segurança alimentar! Por exemplo, falando no caso dos Terenas: lá na nossa aldeia, as famílias continuam plantando, mas grande parte da produção é vendida nas cidades. Então elas vendem a produção e com o dinheiro que recebem, usam para comprar comidas industrializadas porque isso já virou um hábito dentro da casa. Geralmente, o ônibus sai às quatro horas da manhã e as mulheres vão para a cidade de Aquidauana fazer a feira. Três horas da tarde o ônibus volta para buscá-las, então nessa hora, elas correm para o mercado para comprar mantimentos. Praticamente metade ou mais da metade do que se planta e se vende é para comprar produtos industrializados.


P.A - O acesso ao dinheiro também motiva essas compras? Quando os alimentos industrializados começaram a circular dentro da aldeia?

Entre os Terenas sempre teve o hábito do comércio. De tudo o que eu li e ouvi falar desde o século XVII os Terenas fazem trocas. É algo cultural, fazer troca, fazer venda e ir absorvendo outros elementos. Por isso que hoje os Terenas são conhecidos como um povo que tem grande habilidade com dinheiro. Pelas leituras que fiz, parece que isso ficou bastante forte com a “Marcha para o Oeste” [um plano do governo Getúlio Vargas, que começou no final dos anos 1930, para ocupar o Centro Oeste].


P.A - O que aconteceu durante a Marcha para o Oeste?

Nesse período, teve a introdução de um tipo de açúcar e outros produtos. Foi quando começaram a desmontar as aldeias indígenas e deslocar essas populações de lugar. Isso foi alterando as práticas alimentares e outros hábitos, porque tiraram as populações dos locais de origem. A Marcha para o Oeste foi muito forte em produzir novos sistemas alimentares, especificamente em Mato Grosso. E os Terenas sempre foram negociantes, sempre gostaram de trocar uma coisa pela outra. Os viajantes relatavam que as mulheres Terenas faziam roupas iguais a de não-indígenas quando elas queriam, então tinha já essa coisa híbrida.


P.A - Como essas questões sobre alimentação, acesso à terra e cultura tradicional tem sido debatido dentro do movimento indígena entre os Terena?

Hoje temos alguns grandes grupos de discussão. O grupo da saúde é um grupo muito forte, tem muitos indígenas que atuam no grupo da saúde, os acadêmicos. P.A - São todos indígenas? Sim, em alguns casos. Inclusive, são eles que assumem - quando possível - os postos de saúde dentro das aldeias, eles são enfermeiros, chefes, agentes de saúde, eles tratam bastante dessa questão da segurança alimentar. Grupos de professores também. Tem os fóruns de professores indígenas em Mato Grosso do Sul que não é só Terena, tem também Guarani Kaiowá, outros povos. Tem muitos professores e pesquisadores indígenas com uma formação de mestrado, doutorado na área de Educação.


P.A - O movimento indígena Terena faz essa conexão entre o debate alimentar e a luta pelo acesso à terra? Ou a luta pelo acesso à terra tem como foco a questão do pertencimento, de garantir o território pela sua ancestralidade?

Sim, existe essa conexão. Ela é uma das bases da luta pelo acesso à terra. Talvez isso não esteja tão explícito porque não existe uma linha de pensamento que privilegie como um primeiro plano. Por exemplo, em falar do porquê da terra [quando defendemos o acesso à terra]. Mas é um discurso muito forte, por que além da questão ancestral tem a questão da produção de alimentos. Se você pegar as cartas e os documentos do movimento organizado, isso é bem paupável, de quem precisa da terra. E a terra é de onde se tira o sustento! Até na fala das lideranças, eles falam bastante sobre isso. As mulheres falam muito também, dentro de uma divisão, digamos assim. Tem alguns documentos de reunião de mulheres que elas falam disso: produção de alimentos, como é que elas vão reduzir [a produção] para poder manter a comunidade.



P.A - O plantio marca esse pertencimento à terra?

Para povos que tem a cultura das plantações, como os Terena, sim, o plantio marca o pertencimento à terra.


P.A - Então pelo que você está dizendo, para os Terenas não dá para fazer essa separação entre terra e alimentos...

A base do nosso argumento é a sobrevivência alimentar, física e espiritual, porque elas não se desconectam e é difícil explicar isso, porque como uma coisa está totalmente ligada a outra, às vezes, em um discurso, isso não fica explícito. O discurso pode não não ser nítido, mas para quem está acompanhando e vê os documentos do movimento, que falam da luta pela terra, sabe o que tudo isso significa.


P.A - Estou insistindo nessas questões porque existe toda uma campanha de alimentação saudável, consumo de orgânicos, etc. no Brasil e no mundo (especialmente, nos países ricos) e venho notando que essas campanhas não se conectam aos povos indígenas e tradicionais, é quase como se fosse um movimento de brancos...

P.A - Estou insistindo nessas questões porque existe toda uma campanha de alimentação saudável, consumo de orgânicos, etc. no Brasil e no mundo (especialmente, nos países ricos) e venho notando que essas campanhas não se conectam aos povos indígenas e tradicionais, é quase como se fosse um movimento de brancos...


P.A - Estou insistindo nessas questões porque existe toda uma campanha de alimentação saudável, consumo de orgânicos, etc. no Brasil e no mundo (especialmente, nos países ricos) e venho notando que essas campanhas não se conectam aos povos indígenas e tradicionais, é quase como se fosse um movimento de brancos...

Sim! E a gente também tem que pensar também na cultura alimentar. O que é a cultura alimentar? E como ela vai se esvaindo dentro da questão alimentar, que vai sendo substituída pelo glamour. Porque a castanha, em alguns aspectos, ela é glamourosa! As castanhas deste projeto vão para empresas de cosméticos fazerem produtos, mas aí elas já ganham outra forma. Eu acho que esse distanciamento é mesmo proposital, porque encarece o produto, atingindo outro mercado. E fortalece o agronegócio, porque o agronegócio domina a esfera básica do consumo, bota na cabeça das pessoas que eles é quem mantêm o mundo, quando na realidade não é.


P.A - E entre os Terenas? Existe essa questão de trabalhar com agroecologia, plantar orgânico? Você comentou que mais da metade da produção de alimentos nas aldeias é vendida na cidade... Como os Terenas trabalham essa questão da produção voltada para o comércio?

Eles não usam insumos, agrotóxicos, plantam com a cultura agrícola desse povo. A única coisa industrializada que eles usam é um trator, que é para todo mundo, tem que dividir os dias que cada um vai usar na roça. A área mecanizada é bem precária, não tem investimento em agrotóxicos ou em produtos, por exemplo, para melhorar o crescimento. Mesmo o arado, eles têm tecnologias próprias mas que acabam sendo substituídas por algumas novidades que vem do mercado.


P.A - Ondem ficam os territórios do povo Terena?

Os Terenas ficam em aldeias espalhadas em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo. Em Campo Grande também tem uma aldeia urbana. Em São Paulo, eles estão perto de Bauru.


P.A - E hoje estão todos pressionados pelo agronegócio, eu imagino.

Sim. No Mato Grosso do Sul principalmente.


P.A - Tem contaminação das roças indígenas com as sementes de soja transgênica ou contaminação das roças com agrotóxicos?

Tem, inclusive na água. Teve uma situação que o rio passava dentro da aldeia, mas a nascente saia da fazenda, fizeram um poço para o gado lá e a água começou a descer filetinho. E acabou com toda plantação da aldeia porque já não tinha mais água. E tem veneno que vem por cima, é jogado do avião. Ali para o lado de Dourados tem muito isso.


P.A - Os Terenas estão sendo vítimas de violência do agronegócio como vemos que tem acontecido com os Guaranis-Kaiowás, por exemplo?

Sim. Tem regiões que são mais caóticas do que outras, existem focos de disputas mais feias, inclusive teve um assassinato de uma liderança Terena em 2014 e de lá para cá algumas tentativas. Mas as tentativas são constantes.


P.A - Para encerrar, a cosmologia Terena está ligada à agricultura? Tem algum mito de origem ligado aos produtos consumidos tradicionalmente, como milho, mandioca e pequi?

Tem. O mito criador dos Terenas é mais ou menos assim: os Terenas viviam debaixo da terra e um passarinho, um bem-te-vi, estava voando e escutou a voz deles. O bem-te-vi foi chamar os gêmeos. 'Deus' era os gêmeos porque eles não eram separados. E eles tiraram os Terenas debaixo da Terra e os ensinou a plantar. Isso separou o mundo. Separou os Terenas de um lado, e do outro, o resto do mundo. Deus deu aos Terenas arcos e flechas, algumas sementes e alguns instrumentos e ensinou eles a plantar. E eles saíram por aí plantando.


P.A - Era alguma semente específica?

Não. O que está registrado é que 'Deus' dá um punhadinho... a gente tem a mania de falar "punhadinho" de sementes. A gente não sabe o que é esse punhadinho.



 



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