ALIMENTOS EM DISPUTA

ALIMENTOS EM DISPUTA

Por Maíra Bueno | 22/08/2017

O debate internacional em torno da produção de alimentos vem crescendo à medida que surgem novas tecnologias capazes de transformar a agricultura convencional. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, a agricultura orgânica tem sido viabilizada por novas técnicas de plantio, fertilizantes e herbicidas biológicos e também por sistemas computadorizados, que otimizam a produção de alimentos em pequenos espaços, feitos especialmente para uso nas grandes cidades.

Tratando o sistema alimentar hegemônico como único e global – baseado no uso de insumos químicos, sementes híbridas e patenteadas e produção em escala – os países ricos do Norte apostam em soluções tecno-ecológicas para os problemas criados pelas suas indústrias e difundidos ao resto do mundo, é sempre bom lembrar.

Esses países também defendem o retorno de práticas que foram desmobilizadas ao longo dos últimos cinqüenta anos em todo planeta, como a pequena produção agrícola, agriculturas sem agrotóxicos, o consumo de produtos locais e o resgate das sementes crioulas.

Tais estratégias tem sido difundidas pelo chamado “novo movimento agrícola”. Pessoas e organizações que estão unidas a partir de um interesse comum, que é espalhar práticas mais saudáveis e sustentáveis no que se refere à produção dos alimentos.

Se por um lado esse movimento potencializa transformações que trazem benefícios inegáveis às sociedades, por outro, cria-se um nicho no mercado alimentar que privilegia apenas alguns consumidores.

O novo movimento agrícola mostra então que há, hoje, no mundo, uma disputa em torno do meio ambiente e da saúde a partir da agricultura. Isso tanto em termos globais, como em contextos locais.



Como isso repercute no Brasil? Aqui há diversos casos de comercialização de alimentos produzidos por agricultores tradicionais e produtores orgânicos e agroecológicos. Porém, quando escuto falar que é preciso juntar um grupo de pessoas para comprar produtos orgânicos, por exemplo, em sacos de 20 kg pela Internet, percebo como o sistema privilegia alguns setores da população.

Ao mesmo tempo, há belas iniciativas no país que vem sendo conduzidas pela sociedade civil e pelo Estado, e que vem se fortalecendo principalmente nas duas últimas décadas (durante o governo do PT) para democratizar o acesso ao alimento sadio.

São variados e pequenos grupos que conduzem esse movimento, geralmente formados por pesquisadores, técnicos do governo, ativistas, pequenos agricultores, povos indígenas e tradicionais, agricultores urbanos, trabalhadores sem terra, neo-rurais, entre outros. Esses grupos possuem pouco ou nenhum financiamento e lutam para implementar projetos e políticas públicas voltadas para o bem estar da população no seu entorno – e por isso mesmo não viram notícia na grande mídia.

Vemos assim que, apesar de haver todo um novo movimento agrícola despontando internacionalmente, nossos anseios por uma alimentação adequada e saudável é mais antiga do que parece e isso se deve principalmente às desigualdades sociais que desequilibram nosso sistema de produção e distribuição de alimentos.

Em tempos de crise moral, política e econômica que desgasta nosso país, precisamos ter em mente que nas sociedades realmente democráticas o alimento saudável e nutritivo deveria ser um direito de todos e não um privilégio de alguns.






 



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