COMIDA EM MOVIMENTO

A comida em movimento

A comida em movimento

Por Maíra Bueno | 10/08/2016.


Outro dia fui comprar uma panela numa loja comum, dessas de centro de cidade, e o vendedor disparou que agora virou moda cozinhar, referindo-se aos preços mais elevados das panelas e à diversidade de produtos à venda. Eu entendi a colocação dele, afinal, se você ligar a televisão, verá uma série de programas e concursos de culinária. Mas achei interessante ele apontar o preparo da comida como moda, já que de uma forma ou de outra, todos nós, seres humanos, precisamos comer. E para comer, alguém tem que cozinhar.

Cozinhar virou moda justamente quando o preparo da comida deixou de ser uma tarefa exclusivamente doméstica e feminina, restrita às donas de casa e cozinheiras profissionais. Mais precisamente, quando o preparo da comida foi totalmente mercantilizado, e as próprias donas de casa passaram a consumir alimentos processados industrialmente.

Estamos vendo a alimentação deixar de ser associada ao lar e tornar-se um mercado de consumo de massa. O processo de industrialização da sociedade, a profissionalização da mulher, a urbanização, o aumento da renda, todos esses fatores contribuem para que as noções de zelo e bem-estar que antes costumavam definir as refeições estejam sendo substituídos pelas noções de praticidade e rapidez, dentro e fora de casa.

O aumento significativo no número de refeições tomadas fora de casa nas últimas décadas aponta o total afastamento da ideia da alimentação como algo vital e doméstico. Em outras palavras: comemos qualquer porcaria, em todo lugar.

Esse processo não ocorre apenas no Brasil. Ele parece estar presente no mundo todo, com diferenças apenas em relação ao tempo: se em alguns países esse processo já ocorre há mais tempo, em outros trata-se de algo recente. Os resultados, porém, são semelhantes, com prejuízos tanto para a sociedade como para o meio ambiente.



O processamento industrial dos alimentos tem uma relação direta com a industrialização da produção agrícola. Ambas utilizam tecnologias que são geradas nos países ricos e depois difundidas como modelos de desenvolvimento. Essa estratégia política e econômica gera consequências para os sistemas alimentares tradicionais, que vão muito além dos já conhecidos problemas de saúde, como obesidade e diabetes.

Tem a ver também com a negação dos direitos de pequenos agricultores, com a degradação do solo, com a contaminação das águas e dos próprios alimentos com produtos tóxicos à saúde humana, com a perda de biodiversidade agrícola, com o esvaziamento de práticas alimentares tradicionais, com o empobrecimento das dietas locais.

Diante desse cenário, o debate sobre alimentação no Brasil e no mundo torna-se urgente. A maneira como nos alimentamos não deve mais ser vista apenas de uma perspectiva do sabor e das escolhas individuais. A alimentação atualmente é resultado de um sistema alimentar complexo, que está atrelado, entre outras coisas, à pesquisa científica, ao mercado e às políticas locais e globais.

A forma como os alimentos se constituem e o que eles movimentam são temas que deveriam estar amplamente popularizados. Somente assim a sociedade poderia ter condições de deliberar sobre um sistema alimentar saudável e sustentável. Afinal, a população é o elo mais vulnerável desse sistema e também o que mais impulsiona o seu desenvolvimento. A produção de alimentos está voltada para o consumo da população. É a ideia de abastecer a população, portanto, que viabiliza essa produção.

Para começar a pensar sobre isso, convidamos uma pesquisadora ativista que alerta sobre a participação da indústria alimentícia na definição das políticas alimentares no nosso país. Leia a entrevista e deixe seus comentários. O Projeto Alimento agradece!



Divulgue esta ideia.