As crianças e as balas

As crianças e as balas

Por Maíra Bueno | 01/02/2017.


Toda vez que oferecemos balas e chicletes às crianças pequenas como demonstração de carinho perdemos a chance de mostrar o real apreço que temos por elas. Balas e chicletes são pedaços de corantes com aromas e açúcares. Esses produtos foram inventados durante a Revolução Industrial e o marketing logo se encarregou de associá-los com a imagem das crianças.

A associação de produtos da indústria alimentícia com as crianças é tão antiga que passamos a acreditar que quando elas não consomem determinados produtos estão sendo privadas de sua infância. Tudo isso, porém, é resultado de construções ao longo do tempo, que uma vez incorporadas, passam a fazer parte da cultura.

E quando algo passa a fazer parte da cultura, é como se fosse “natural”, como se sempre tivesse sido assim. Por isso é notável quando alguns pais tentam desconstruir certos significados associados aos alimentos e encontram toda uma sociedade envolvente tentando evitar que essa desconstrução ocorra.

A força da tradição é essa. Quando recusamos um alimento que tornou-se tradicional por seu significado ligado à infância, às brincadeiras e à felicidade, estamos recusando que meninos e meninas sejam crianças, brincalhonas e contentes. E assim mantemos toda uma tradição em torno de alimentos que poderiam ser evitados ou consumidos de forma realmente moderada.






Mas não. Oferecemos balas, chicletes e uma série de outros produtos nocivos às crianças para agradá-las, o tempo todo! Esses produtos não são apenas nocivos às crianças, mas são elas que acabam sendo as grandes disseminadoras do gostoso e divertido. É assim que crianças viram adultos com gostos infantilizados e pensamentos imaturos ligados ao comer.

Quando achamos que não tem problema oferecer refrigerantes, salgadinhos industrializados, bolachas recheadas, achocolatados e toda sorte de produtos coloridos e açúcarados, contribuímos com a formação de um paladar distorcido acerca dos alimentos.

O bom passa a estar associado ao alimento artificial. E tudo aquilo que foi feito em casa, com menos açúcar, com produtos naturais, com amor e afeto, já não tem mais valor na nossa sociedade. Forma-se a noção de que alimentos que fazem bem à saúde são sem graça e sem gosto: são alimentos que devem ser comidos por obrigação.

Então por mais banal que possa parecer, deixar de oferecer balas e chicletes às crianças é um grande ponto de partida para mudarmos nossa concepção sobre cuidado e alimentação infantil. Afinal, a cultura é dinâmica e se transforma constantemente. Caso contrário, estaríamos presos a um panorama bem pessimista em relação ao que comemos.

 



Divulgue esta ideia.