Dossiê Abrasco

Saiba como o Dossiê foi projetado e as consequências dessa articulação. André Búrigo organizou junto com mais quatro pesquisadores o “Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”. Fizemos uma longa entrevista sobre o cenário de contaminação por agrotóxicos no Brasil, a Agroecologia como alternativa ao modelo da Revolução Verde e sobre o próprio processo de construção e divulgação do Dossiê. Nesta segunda parte da entrevista, ele fala sobre as estratégias de produção, articulação e divulgação do Dossiê, explica o debate sobre a produção do conhecimento voltado para o agronegócio e a repercussão do Dossiê no cenário brasileiro. André Búrigo é formado em Medicina Veterinária, possui mestrado em Educação e faz doutorado em Saúde Pública. Atualmente ele trabalha como professor na Escola Politécnica de São Joaquim Venâncio, a Escola de Saúde Pública da Fiocruz, no Rio de Janeiro, que oferece cursos de capacitação para estudantes do ensino fundamental e médio. Ele também desenvolve currículos e experiências de educação voltadas a pensar a saúde do campo, atuando diretamente com juventudes de contextos rurais.

Por Maíra Bueno | 26/10/2016.

Entrevista Parte II

PA – Como surgiu a ideia de montar um dossiê sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde?

AB - O dossiê parte de uma reflexão de um conjunto de pesquisadores que são associados da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e que estavam pensando em como contribuir com a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, da qual já faziam parte. A campanha é resultado da articulação de diferentes organizações da sociedade civil, associações acadêmicas e instituições públicas. A campanha foi lançada no dia 07 de abril de 2011, no Dia Mundial da Saúde, em um contexto onde estavam acontecendo diversos debates com movimentos camponeses sobre os impactos dos agrotóxicos, em especial o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) pelos efeitos sentidos no Espírito Santo, e da Marcha das Margaridas, de 2009.


PA – E o Dossiê, foi lançado em que contexto?

AB – Logo depois que a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida foi lançada, começamos a trabalhar na divulgação da campanha. Ao mesmo tempo, começamos a pensar como poderíamos contribuir com a Campanha de maneira mais consistente. Naquele primeiro ano, um material muito importante de divulgação foi o documentário “O Veneno está na Mesa”, de Silvio Tendler. Vários de nós, da Abrasco, rodamos o filme em diversos lugares do Brasil, debatendo com comunidades rurais e outros grupos organizados nas cidades. Mas queríamos dar outro tipo de contribuição, daí surgiu a ideia do dossiê.


PA – Qual é o objetivo do Dossiê?

AB - O Dossiê, em um primeiro momento, buscava reunir um conjunto de informações sobre o uso indiscriminado de agrotóxicos no país, a partir de pesquisas científicas que estão espalhados por muitos livros e artigos. O objetivo era agregar tudo em um único documento para mostrar que não é por falta de evidências que os agrotóxicos não são banidos do Brasil. A ideia era lançar o dossiê completo em abril de 2012. Mas chegamos à conclusão que era muita coisa. Era melhor fazer temático. Então organizamos o dossiê em 4 partes. A primeira parte do dossiê foi lançada no Congresso Mundial de Nutrição, que aconteceu no Rio de Janeiro, em abril de 2012, e trata do tema dos impactos dos agrotóxicos na segurança alimentar e nutricional e, por consequência, à saúde.


PA – Desde então, o Dossiê tem sido divulgado sistematicamente com novos temas? Como funciona?

AB – Sim. Depois que lançamos o tema de Segurança Alimentar e Nutricional, escolhemos a reunião Rio + 20, que ia acontecer em julho de 2012, no Rio de Janeiro, para lançar o tema sobre modelo de desenvolvimento, que é a segunda parte do Dossiê: “Saúde, Sustentabilidade e Ambiente”. Depois lançamos o terceiro tema, sobre o questionamento da produção de conhecimento nessa área, em novembro de 2012, no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o maior congresso de saúde coletiva e de saúde pública do Brasil. Mas desde que foi lançada a primeira parte, ficou claro que nosso trabalho era de denúncia e anúncio. Por isso, continuamos lançando novos temas, na medida em que o debate vai avançando. Em 2015, o Dossiê foi lançado na forma de livro, mas ele não encerrou. O Dossiê é um projeto aberto e vamos continuar esse trabalho!




PA – Este trabalho de denúncia e anúncio adotado pelo Dossiê é feito de que forma?

AB – O Dossiê trabalha com a denúncia dos impactos dos agrotóxicos, mas se ficarmos só nas denúncias, abre-se uma brecha para aquela velha discussão “ah, mas não tem o que fazer! É um mal necessário, vocês não mostram uma alternativa”. Então a ideia é fazer como a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida faz. O “pela Vida” da campanha significa a defesa da agroecologia. E o Dossiê, desde a primeira parte, já vem trazendo a agroecologia como alternativa. Só que na primeira parte, a agroecologia é tratada de forma bastante breve. A partir do momento que o Dossiê vai avançando, vamos mostrando mais elementos da agroecologia. Na segunda parte, por exemplo, nós demos visibilidade à denúncia dos impactos dos agrotóxicos, mas também sobre as resistências a esse modelo que a sociedade brasileira tem construído desde então. As mais relevantes são as campanhas e as atuações do Ministério Público e claro, o anúncio da agroecologia.


PA – Quem participou da elaboração do Dossiê?

AB - A primeira parte do Dossiê foi desenvolvida basicamente por pesquisadores e profissionais da saúde que participam da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida. Na medida em que fomos avançando no diálogo com outros movimentos que participam da campanha, percebemos a necessidade de construir essa experiência junto com os movimentos. Ou seja, o Dossiê não é só um resultado, um produto final. O Dossiê é um documento que reúne muita crítica, que pode ser divulgado para a mídia e que também pode ser uma ferramenta de um processo de sua construção, que serve para fortalecer a própria experiência de rede da Campanha.


PA – E os movimentos, participaram do Dossiê?

AB - Usamos a metodologia das Vozes e Territórios na parte 3 do dossiê. Com isso, disparamos um processo junto à Campanha contra os Agrotóxicos em que pedíamos aos núcleos organizados que escrevessem cartas contando as histórias de relação com os agrotóxicos. Tudo que já foi passado e que foi superado ou que estava sendo vivido, enfim, os desafios da agroecologia. Recebemos 18 cartas. Algumas delas foram escritas diretamente pelos agricultores, outras foram escritas em conjunto por pesquisadores e comunidade. Foi um processo muito interessante e coerente com a reflexão que esta parte do Dossiê apresenta.


PA – Foi a partir desse processo que o Dossiê resolveu discutir a produção do próprio conhecimento?

AB – Sim! Na parte 3 fazemos um debate sobre qual que é a função social da ciência e da saúde coletiva, em especial, da produção do conhecimento da saúde coletiva. Abrimos críticas a estratégias metodológicas e perspectivas epistemológicas que ignoram o conhecimento produzido pelas comunidades. E defendemos nossa relação e articulação com essas comunidades, que estão passando por um verdadeiro massacre do agronegócio. Portanto, refutamos qualquer perspectiva de neutralidade da produção do conhecimento.


PA – Que críticas são essas? Qual é a discussão sobre a neutralidade da produção do conhecimento?

AB – Nós mostramos, através de dados, que a grande maioria das pesquisas sobre agrotóxicos que acontecem no Brasil são para desenvolver mais agrotóxicos, estudos integrados ao paradigma do agronegócio. Portanto, não há qualquer neutralidade na produção dessas pesquisas. Isso mostra como o agronegócio está presente nas faculdades de agronomia e zootecnia do nosso país, interferindo nas agendas de pesquisa. Muito pouco está sendo pesquisado sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde do trabalhador, por exemplo. Não temos incentivo à pesquisa para revelar os impactos no modelo de desenvolvimento do nosso país.


PA – Como foi a repercussão da parte 3?

AB - Lançamos a parte 3 do Dossiê em novembro de 2012. Temos grandes desafios na produção do conhecimento e temos buscado avançar atuando junto de redes que articulam movimentos sociais. Outro avanço importante é que o Dossiê contribuiu para aprofundarmos a relação entre a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e a Aba-Agroecologia (Associação Brasileira de Agroecologia). No dia do lançamento, também recebemos duas informações importantes. Um dos pesquisadores, que é autor do Dossiê e que participou ativamente de todo esse processo, nos enviou uma imagem de um avião pulverizando agrotóxico sobre uma aldeia indígena no Mato Grosso. Nesse mesmo dia ficamos sabendo que Luís Claudio Meirelles, coordenador da ANVISA na área de gerência de toxicologia entre 2001 até 2012, foi exonerado dias antes do lançamento da terceira parte do Dossiê.


PA – Foram atos retaliativos?

AB – Em relação ao Dossiê? Acredito que não. São expressões da violência do agronegócio. A violência é uma característica estrutural do agronegócio. Nós abordamos isso na quarta parte do Dossiê. Luís Claudio Meirelles foi exonerado em um contexto em que ele denuncia um esquema de fraude, que aponta para um esquema de corrupção, dentro da ANVISA. A assinatura dele estava sendo falsificada para que alguns princípios ativos não passassem pelo setor responsável pela avaliação toxicológica. Ele denunciou esse esquema e foi exonerado por ter feito a denúncia. Tanto a foto da aldeia quanto a exoneração de Luís Claudio nos levaram à conclusão imediata de que o Dossiê não podia parar. A situação estava se agravando e precisávamos continuar aquele processo. Fizemos algumas reuniões de avaliação que culminaram na quarta parte do dossiê...


PA – Fala um pouco sobre a quarta parte.

AB – Quando optamos pela quarta parte, decidimos publicar o Dossiê no formato de livro. Fazer a revisão daquelas três primeiras partes e criar uma quarta parte de atualização de tudo o que acontecia. Uma quarta parte transversal que não seria escrito por tema. Então na quarta parte, nós aprofundamos o debate e atribuímos um peso maior à questão da agroecologia, porque nas três primeiras partes não tínhamos dado o tratamento a fundo. O livro circula bastante entre os profissionais de saúde e a agroecologia ainda é desconhecida entre muitos desses profissionais, entre pesquisadores de saúde coletiva, então era importante aprofundar essa questão. Nós também tivemos uma forte interação com a Articulação Nacional de Agroecologia - ANA, que reúne centenas de organizações de agroecologia no Brasil. Nós organizamos junto com a ANA um texto que apresenta de forma geral o que é o campo e o movimento da agroecologia no Brasil nesta parte quatro do Dossiê. Nós lançamos o Dossiê com a quarta parte, na forma de livro, em abril de 2015.


PA – Durante esse período em que as partes do dossiê foram lançadas até a publicação do livro, entre 2012 e 2015, houve alguma mudança no cenário brasileiro de uso de agrotóxicos e promoção da agroecologia?

AB - Entre novembro de 2012 a outubro de 2014, quando encerramos a quarta parte e começamos o processo de edição do livro, foram dois anos de muita pressão do agronegócio, muito retrocesso. Mas também foi um período que conquistamos a Política Nacional de Agroecologia de Produção Orgânica. Só que com o afastamento da Presidente Dilma, nesse contexto de golpe midiático-jurídico-parlamentar, toda essa agenda está gravemente ameaçada.


PA – Como está o Dossiê hoje? Novas partes continuam sendo lançadas?

AB - Hoje estamos trabalhando para lançar o dossiê em espanhol. Fizemos o lançamento em Bogotá, na Colômbia. E a ideia de rede, todo o processo continua. Os pesquisadores da Colômbia, por exemplo, os sanitaristas, criaram uma rede de saúde coletiva há uns dois anos e estão trabalhando na construção do dossiê colombiano dos impactos do agrotóxicos como uma das estratégias para fortalecer as redes deles. Temos como projeto avançar para construir um dossiê latinoamericano dos impactos dos agrotóxicos.


PA – Tem havido retaliação ao Dossiê?

AB - Não. Essa é uma coisa curiosa. O Silvio Tendler, que fez os documentários “O veneno está na mesa” também relatou que em nenhum momento recebeu qualquer tipo de pressão do agronegócio. Parece que o agronegócio lançou mão da estratégia de tentar manter na invisibilidade o máximo possível tantos os documentários do Tendler como o Dossiê. Teve uma única manifestação de retaliação que foi através de uma revista (na Revista Galileu). O presidente da ANDEF e um pesquisador que sempre é chamado pela ANDEF desqualificaram o Dossiê. A gente também trata desse episódio na parte quatro.


PA – Qual é o papel da ANDEF?

AB - ANDEF é Associação Nacional de Defesa Vegetal. A ANDEF foi criada no Brasil na década de 70 e reúne as empresas que comercializam agrotóxicos. A ANDEF produz publicidade para fazer apologia aos agrotóxicos e dizer que não fazem mal. É uma das principais organizações que influencia a agenda política do país, faz lobby sobre os parlamentares, sobre o governo. A ANDEF representa a MONSANTO, a BAYER, a BASF, a SYNGENTA, a DOW. Ela representa outras empresas e desde que a chamada Revolução Verde chega ao nosso país, a ANDEF está atuando para garantir que tenha expansão dos agrotóxicos.


PA – Como foi a postura da ANDEF diante do Dossiê?

AB – O presidente da ANDEF tentou desqualificar o Dossiê, mas sem fundamentação alguma. Ele diz na Revista Galileu que o dossiê tem menos importância que o jornal que ele compra na esquina da casa dele. Ele critica a Fiocruz, a Abrasco... Na mesma matéria, um pesquisador da UNICAMP, que é sempre chamado pela ANDEF para poder justamente contra argumentar as críticas sobre os impactos dos agrotóxicos, também tenta desqualificar o Dossiê. É como a indústria do tabaco, a indústria tóxica em geral... é muito comum, infelizmente, ter pesquisadores que colocam o seu conhecimento a serviço dessas indústrias, para colocar dúvidas na afirmação de quem está revelando o impacto da indústria tóxica. Ele tenta desqualificar tudo na dúvida. Se a gente afirma que “não existe nenhuma pesquisa que aponte a segurança da exposição do glifosato a longo prazo”, ele argumenta que “não existem evidências de exposição a longo prazo que possa ter problemas, ainda são questionáveis as metodologias, as pesquisas que apontam isso, não temos motivos para poder nos preocupar”. Ele tem essa atuação...


PA – Houve um financiamento para desenvolver o Dossiê?

AB – Os pesquisadores que contribuíram com o dossiê fizeram tudo de forma colaborativa. Foi um trabalho voluntário, militante. Todas as pessoas envolvidas no Dossiê não receberam nada para trabalhar. Mas foi um aprendizado coletivo fantástico! Foi uma experiência muito rica... PA – E a Abrasco e a Fiocruz, não deram apoio?


PA – E a Abrasco e a Fiocruz, não deram apoio?

AB - A Abrasco é uma associação científica, não tem fins lucrativos, não tem recursos próprios para financiar iniciativas como essa. Desde que a Abrasco foi fundada em 1979 ela representa um esforço, uma reunião de trabalhadores e estudantes da saúde, além de pesquisadores, que estão atuando em defesa da saúde. Nós que participamos da elaboração do Dossiê, somos sócios da Abrasco e nos colocamos na luta em defesa da saúde. A Fiocruz acolheu a proposta de publicação do livro. Nós submetemos as propostas para a editora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fiocruz, do Rio de Janeiro, onde eu sou professor, e foi aprovada. Mais recentemente, tivemos apoio da Fiocruz para viabilizar a tradução e diagramação do livro para a versão em espanhol, que também foi aprovada. Então a Fiocruz foi quem viabilizou as edições do dossiê em livro, inclusive da versão em espanhol.


PA - Os lançamentos também são feitos de forma colaborativa?

AB - Sim, as diferentes universidades, movimentos e diferentes grupos da sociedade que organizaram os lançamentos, tinham que viabilizar basicamente o transporte para que autores do Dossiê participassem. Fizemos vários lançamentos. Recebemos muitos convites para capitais e para o interior do Brasil. O Dossiê já foi lançado em dezenas de lugares. Esse foi um grande desafio, mas que ao mesmo tempo permite avançar o trabalho.


PA - As universidades reproduzem o paradigma do uso do agrotóxico... Qual foi a recepção dos estudantes durante os lançamentos nas universidades?

AB - Nós conseguimos conversar com os estudantes que estão na graduação de agronomia, engenharia florestal, zootecnia. Muitos desses estudantes são politizados, estão no movimento estudantil e geralmente já estão sensibilizados com o problema e muitos engajados na construção da agroecologia. Já conseguem aprofundar um pouco mais a percepção, perceber que não estamos falando de algo que não seja concreto, que não seja possível de ser produzido. Afinal, existem algumas experiências no Brasil de produção em larga escala de produto orgânico. A merenda escolar de Porto Alegre, por exemplo, usa arroz agroecológico produzido nos assentamentos da reforma agrária que o MST organiza na região metropolitana. Eles produzem na região metropolitana de Porto Alegre, abastecem todas as escolas da cidade e ainda vendem arroz para outros estados. Eu mesmo compro esse arroz aqui no Rio de Janeiro. Ou seja, eles tem uma produção grande, sem uma gota de veneno. Não estamos falando de qualquer coisa! Temos hoje no Brasil experiências agroecológicas no Brasil inteiro. E não acredito que exista um município no Brasil que não tenha experiência de produção sem usar veneno.


PA – Imagino que produzir sem veneno deveria ser algo espontâneo para o agricultor, produção com base no conhecimento tradicional e não no conhecimento científico-tecnológico.

AB - Exato. A Revolução Verde também tem um impacto de destruir o conhecimento tradicional. Essa retórica dos técnicos agrícolas, de que não é possível produzir sem veneno, isso foi algo que foi passado para eles. Nas universidades, nas escolas técnicas. Eles foram formados para acreditarem nisso. E não há como esperar outra postura de técnicos formados dessa forma, porque eles foram ensinados para trabalhar naquele tipo de agricultura da Revolução Verde. Quando um técnico desses é chamado para dar a resposta na agricultura ecológica, ele fala que não dá certo, porque ele não sabe como dar a resposta para aquele modelo de agricultura.


PA – Essa questão do saber é fundamental!

AB – Sim! Eu falo isso por experiência própria. Sou formado em medicina veterinária e no último período de faculdade, quando fui fazer uma experiência nos assentamentos do MST em Unaí (MG), os assentados me levavam para mostrar o problema de saúde da galinha e do porco, me chamavam de doutor brincando e me perguntavam o que eu tinha que fazer naquela situação. Eu dizia “eu não sei, na faculdade de veterinária eu aprendi que animal de produção, especialmente porco e galinha, quando adoecem, precisam ser eliminados para não adoecer o restante do lote”. A medicina veterinária da Revolução Verde não trabalha com cura da galinha e do porco, ela não reconhece a galinha e o porco do fundo de quintal, ela só trabalha com o sistema intensivo. Então eu não tinha resposta alguma para dar. O agrônomo que se forma sem ter a possibilidade de ter essas reflexões, acesso a essas evidências, ele não sabe nem como dialogar, se sente até um pouco ameaçado naquele circuito. Por isso existe toda uma revolução cultural que a gente precisa dar conta também.


PA – É possível esperar bons resultados de todo esse trabalho da Campanha contra os Agrotóxicos e do próprio Dossiê se o currículo dessas escolas continuam reproduzindo o mesmo discurso?

AB - Sem dúvida. É um grande desafio, mas é possível! A Política Nacional de Assistência Técnica e Assistência Rural tem várias experiências que estão previstas para o segundo Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Outra estratégia da PNAPO é a implementação do PRONARA, por exemplo, que é o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos. Apesar de desejarmos a eliminação de todos agrotóxicos, afinal sabemos que fazem mal, precisamos fazer isso com responsabilidade, é necessário uma transição. É claro que tem agrotóxicos que a gente deve eliminar imediatamente. Os que já estão comprovados com efeitos negativos e que são proibidos em outros países, esses temos que eliminar. A pulverização aérea com esses agrotóxicos forma uma nuvem de veneno que inviabiliza produções agroecológicas. E existem milhares de técnicos no Brasil que estão dentro de organizações agroecológicas, que estão na luta da agroecologia desafiando a construção de um outro tipo de extensão rural e de assistência técnica. Existem milhares de trabalhadores técnicos e pesquisadores das áreas agrárias que estão produzindo conhecimento técnico-científico para o avanço da agroecologia. O conhecimento tradicional tem de ser valorizado e esse conhecimento técnico-científico, do campo científico da agroecologia, tem contribuição fundamental. Pelos menos desde a década de 1980 temos muitos técnicos comprometidos com a agricultura ecológica. O diálogo entre esses saberes é fundamental.



Baixe em PDF

 



Divulgue esta ideia.