Dossiê Abrasco sobre Agrotóxicos e Saúde

Os alimentos, a água da chuva e os aquíferos do Brasil estão contaminados com agrotóxicos.
André Búrigo organizou junto com mais quatro pesquisadores o “Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”. Fizemos uma longa entrevista sobre o cenário de contaminação por agrotóxicos no Brasil, a Agroecologia como alternativa ao modelo da Revolução Verde e sobre o próprio processo de construção e divulgação do Dossiê. Por isso, dividimos a entrevista em duas partes. Nesta primeira parte ele explica como é feita a análise dos alimentos para identificar a contaminação por agrotóxicos, porque a água da chuva está contaminada com agrotóxicos que já foram banidos no país e como esse mercado vem atuando no Brasil e no mundo. André Búrigo é formado em Medicina Veterinária, possui mestrado em Educação e faz doutorado em Saúde Pública. Atualmente ele trabalha como professor na Escola Politécnica de São Joaquim Venâncio, a Escola de Saúde Pública da Fiocruz, no Rio de Janeiro, que oferece cursos de capacitação para estudantes do ensino fundamental e médio. Ele também desenvolve currículos e experiências de educação voltadas a pensar a saúde do campo, atuando diretamente com juventudes de contextos rurais.

Por Maíra Bueno | 26/10/2016.

Entrevista Parte I

PA - Como está o cenário brasileiro de contaminação por agrotóxico?

AB - É uma tragédia, uma catástrofe! O Brasil tem uma situação de uso indiscriminado de agrotóxico. Temos uma área agrícola menor que os EUA, mas formamos junto com os EUA os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Isso oficialmente, porque os EUA conseguem ter um controle maior das fronteiras para a entrada de pessoas e produtos também, o que é totalmente diferente no nosso país. Aqui entra muito agrotóxico contrabandeado, principalmente via fronteira com Paraguai, Bolívia e Argentina. E os dados de contaminação são assustadores. A ANVISA divulgou dados que revelam que há alimentos contaminados com até 14 resíduos de agrotóxicos diferentes. Ou seja, pessoas estão se alimentando disso, agricultores estão sendo expostos a 14 tipos de venenos diferentes!.


PA – Como é feita a análise de contaminação dos alimentos?

AB - A ANVISA pega amostras de alimentos nos mercados, leva para o laboratório e faz a pesquisa de parte dos ingredientes ativos (IAs) autorizados para uso agrícola. Mas a ANVISA não pesquisa os principais agrotóxicos utilizados no Brasil. O glifosato e o 2,4 - D, por exemplo, não são pesquisados. Então na melhor das hipóteses, são testados metade dos IAs autorizados no Brasil. Ou seja, o índice de contaminação, que fica por volta de 65 a 70% em alguns alimentos, pode ser muito maior do que isso. Em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, considerada uma cidade modelo para o agronegócio, os pesquisadores analisaram amostras do ar, da água da torneira de escolas, da chuva, do leite materno e tudo deu positivo. Lá estava chovendo veneno na época da pesquisa, as pessoas estavam respirando veneno, as crianças bebiam água contaminada e até os bebes se alimentavam com leite materno contaminado.


PA – E nos outros contextos, onde não há agronegócio? Existe contaminação?

AB – Sim. Nos aquíferos Jandaira e Guarani, por exemplo, foram realizadas pesquisas que identificaram agrotóxico na água. A regulação da qualidade da água potável no Brasil determina que as concessionárias de abastecimento investiguem a contaminação por agrotóxico. Estão autorizados para uso agrícola cerca de 400 tipos diferentes de agrotóxicos no Brasil hoje, mas a regulação da qualidade da água determina que apenas 27 sejam monitorados. E uma ação do Ministério Público de Dourados, em Mato Grosso do Sul, identificou que dos 27 só 15 estavam sendo pesquisados. Mesmo assim, os resultados sistematizados pelo Ministério da Saúde revelam que há muitos resultados positivos. E se fosse pesquisado todos os cerca de 400 agrotóxicos comercializados, o quanto não iriam achar de veneno na água que estamos bebendo?


PA – O agrotóxico se movimenta?

AB – Sim, mas não é só isso. Tem uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ que identificou a presença de agrotóxico na água da chuva no Pico das Agulhas Negras, na Serra de Itatiaia, no Rio de Janeiro. A pesquisa mostra que as nuvens e as correntes atmosféricas, os locais de maiores altitudes, concentram a precipitação de chuva com agrotóxicos. Mas além disso, os pesquisadores encontraram na amostra da água da chuva um agrotóxico proibido no Brasil desde 2014. Em tese, esse agrotóxico não está mais sendo utilizado. É o mesmo problema do DDT, que foi proibido no Brasil há bastante tempo. Mas pesquisas continuam identificando derivados do DDT nas análises de agrotóxico. Isso acontece porque esses tipos de agrotóxico permanência de longa duração no ambiente, eles tem uma características chamadas de bioacumulação. Então continuam usando esses agrotóxicos? Talvez não, mas isso não tem a menor importância. Porque mesmo que a gente pare hoje de usar esses tipos de agrotóxicos, vamos sofrer os impactos durante um bom período.




PA - Porque que o glifosato, que é tão combatido, não é analisado?

AB - Uma justificativa, inclusive da ANVISA, é que a análise do glifosato exige um método específico de pesquisa, com equipamentos caros. Nós argumentamos o contrário: se estamos trabalhando com um produto tóxico – e isso está colocado na regulação dos agrotóxicos, deveríamos permitir a entrada desses produtos no país somente se houvesse meios para monitorar os impactos deles. E são as empresas que tem interesse na comercialização desses agrotóxicos que tem que viabilizar isso. Esse sistema econômico concentra os lucros do desenvolvimento, mas socializa com toda a sociedade os problemas desse desenvolvimento e ainda joga os gastos nas contas públicas. Tem um estudo de economia ecológica que está no Dossiê que aponta o seguinte: para cada U$1 dólar gasto com o uso de agrotóxico no Paraná, U$1,23 dólares são gastos com tratamento pela contaminação de agrotóxico. Então esse é um debate que precisa ser considerado! O monitoramento do impacto dos agrotóxicos tem de ser viabilizado pelo setor público com recursos que sejam taxados do lucro das empresas que comercializam agrotóxicos.


PA - O que faz o glifosato?

AB - O glifosato é um herbicida não seletivo, popularmente chamado de “mata mato”. A carpina química é colocado como argumento de desenvolvimento para os agricultores. Muitas vezes provocam os agricultores com o seguinte argumento: “você quer voltar ao tempo da enxada?” Porque dá para capinar 2 hectares com glifosato em um dia e na enxada levaria muito mais tempo. Tem muitas prefeituras que utilizam o glifosato também, mas é de forma ilegal, porque é proibida a carpina química em cidades. Ao invés de tirar o matinho que vai crescendo entre as calçadas, pulveriza com glifosato. O maior uso do glifosato está associado ao plantio de monoculturas, principalmente soja. É o agrotóxico mais consumido no planeta. Ainda não foi banido no Brasil e tem poucos países do mundo que baniram o glifosato.


PA – É possível para o agricultor evitar o glifosato nesse contexto atual de produção industrial de alimentos, onde há especialização na agricultura e toda essa questão da demanda, prazos e outras pressões do mercado consumidor?

AB – Com certeza! A agroecologia trabalha com a ideia de cobertura verde, não deixa o solo limpo. Na agroecologia a biodiversidade não é inimiga, pelo contrário: é necessária. O glifosato é um herbicida utilizado para matar o que chamam de plantas indesejadas na agricultura. E seu consumo expandiu muito com o advento dos transgênicos. A primeira variedade de transgênico que entrou no Brasil – de forma ilegal, vale lembrar – foi a soja Roundup Ready (RR), que é produzida pela Monsanto e foi modificada geneticamente para tolerar o glifosato, um agrotóxico que também é produzido pela Monsanto. Ou seja, a Monsanto lucra duas vezes com essas sementes. Vende a semente e o veneno ao mesmo tempo. A Monsanto e outras multinacionais dizem que se o agricultor usar uma soja que é resistente ao agrotóxico, o agrotóxico não irá impactar a soja, que vai crescer mais rápido. Na prática, porém, muitas plantas estão desenvolvendo resistência ao glifosato. Por isso houve um aumentou no consumo de glifosato pois são necessárias mais pulverizações para ter o mesmo resultado.


PA – A soja é produzida em larga escala, a maior parte dessa produção é exportada. Além da contaminação do meio ambiente e da própria soja, qual é o impacto do uso indiscriminado de agrotóxico para a sociedade brasileira?

AB – Hoje em dia todos os alimentos processados e ultra processados possuem soja, seja na forma de lecitina de soja, seja o grão integral. Então precisamos investigar o impacto disso na saúde. As indústrias que trabalham com o processamento de alimentos também tem grande poder, atuação mundial com concentração dos mercados e fazem parte do agronegócio. Porque a cadeia do agronegócio envolve desde o local de produção, a circulação e comercialização de produtos e insumos até o destino final dos resíduos. Essas empresas, portanto, fazem parte do circuito. E elas têm adotado cada vez mais soja nos seus produtos, que são amplamente consumidos pelos brasileiros.


PA - Porque o Brasil continua permitindo agrotóxicos que foram banidos há décadas nos outros países?

AB - Por interesse das empresas que querem lucrar com a venda desses produtos. Precisamos olhar para esse cenário da divisão internacional do trabalho e divisão internacional dos impactos do modelo de desenvolvimento. Com a globalização, nas duas últimas décadas e meia principalmente, vimos no planeta a migração de processos produtivos tóxicos para o hemisfério sul. Muitas siderúrgicas foram fechadas na Alemanha, Inglaterra e instaladas no Brasil e outros países da América Latina, Ásia e África. Nesse cenário, muitos agrotóxicos proibidos em outros países, especialmente na Europa – apesar de serem produzidos por empresas de lá – são comercializados nos países da América Latina, África e Ásia. A BAYER e a BASF são dois grandes exemplos, são duas multinacionais alemãs que tem produtos que não circulam dentro do território alemão, mas circulam na América Latina, África e Ásia. Os Estados Unidos são exceção. Nos EUA estão grandes corporações produtoras de agrotóxicos que utilizam esses venenos em seu próprio território, é o caso da Monsanto, que é a produtora do glifosato.


PA – O mesmo acontece com os transgênicos...

AB – Sim. Os transgênicos são outro exemplo. A União Europeia não permite a produção com transgênico em seu território, mas produz sementes transgênicas para serem vendidas e plantadas em países do hemisfério sul. As empresas trabalham com a lógica de tentar estender o máximo possível a vida de mercado dos seus produtos. Ao mesmo tempo, elas desenvolvem novos produtos para poderem continuar no mercado quando aqueles produtos forem banidos. Então elas têm uma lógica de dominação do mercado absoluta, entende? Estamos falando de multinacionais que estão concentrando o mercado cada vez mais. Primeiro teve a divulgação que a BASF estava se juntando com a SYNGENTA e agora a BAYER com a MONSANTO. São empresas que só com o mercado de agrotóxicos e de sementes transgênicas mobilizam em torno de 40 a 50 bilhões de dólares por ano. Muitos países no mundo não tem essa receita! Então o poder dessas empresas é gigantesco.


PA – Como a regulamentação nacional é feita?

AB – Essas empresas trabalham de uma forma muito intensa, elas tem uma articulação que nenhum país tem. Fazem o lobby no congresso brasileiro, ao mesmo tempo que estão fazendo lobby no congresso argentino e em outros congressos e parlamentos da América Latina. De forma que ao autorizar o transgênico no Brasil, pressionam a Argentina para fazer o mesmo, por exemplo. Dizem que o Brasil tem uma Agência Nacional de Vigilância Sanitária rigorosa que aprovou o uso de determinado produto, que o produto não causa impactos na saúde e que se a Argentina não aderir, vai perder comercialmente para o Brasil. O Brasil vai produzir e expandir lavouras, em tese mais produtivas e a Argentina vai ficar para trás...


PA - O que o lobby negocia para conseguir liberar a regulamentação?

AB – Pressionam agências reguladoras como a ANVISA, por exemplo. Não só empresas de agrotóxicos. A indústria farmacêutica, por exemplo, também consegue penetrar bastante em agências como a ANVISA. O “setor regulado” tem uma interação com a Anvisa maior que instituições públicas e associações científicas como a Abrasco. E o lobby atua financiando campanhas de políticos, fazendo chantagem, orientando os parlamentares da bancada ruralista como agir. Seja apresentando projetos de lei para fragilizar a regulação de agrotóxicos ou para atuarem questionando o papel da saúde (ANVISA) e do meio ambiente (IBAMA). Uma coisa que a bancada ruralista faz muito é atrapalhar o trabalho da ANVISA. Eles criam estratégias para inviabilizar a agenda de trabalho mais propositiva e em defesa da saúde da ANVISA. Como eu disse, essas empresas também orientam a produção da legislação, como o Projeto de Lei 3200/2015, que retira a palavra agrotóxico e substitui por “produtos fitossanitários”. Essa é uma bandeira antiga da ANDEF. A ANDEF tem o nome Associação Nacional de Defesa Vegetal, eles defendem os “defensivos agrícolas”, nunca utilizam em seus argumentos a palavra agrotóxico, apesar de ser este o termo correto definido em legislação federal. Enfim, são muitas ações diferentes, ao mesmo tempo.


PA - Essas empresas que fazem lobby são todas multinacionais... Como faz para enfrentar essas corporações?

AB – Essa é uma luta global. Vandana Shiva é uma grande referência nessa luta, os pesquisadores da Organização ETC Group também são grandes referências, monitorando as biotecnologias das multinacionais. Existe uma rede de pessoas que estão atuando a nível mundial. Se tivéssemos recursos para traduzir o “Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde” imediatamente para o inglês, alemão, francês, seria muito importante. Essa medida de socializar a informação é fundamental. Tanto que no momento em que começamos a divulgar o dossiê na mídia aumentou o número de propagandas expositivas do agronegócio. Lançaram a propaganda “Sou agro”, depois a Caixa Econômica Federal lançou propaganda falando de crédito agrícola, todas trazendo uma imagem positiva do agronegócio com atores e músicos muito conhecidos do público. O agronegócio é muito maior do que a reunião de latifundiários. O agronegócio envolve a indústria tóxica, grandes veículos de comunicação, bancos públicos, penetra nos três poderes da federação... tem uma estrutura de poder muito forte. Então fazemos muito esse trabalho de fazer circular as informações e de articulação, de produção de conhecimento para tentar fomentar novas pesquisas. Trocar metodologias de pesquisa, nós viabilizamos isso.



Baixe em PDF

 



Divulgue esta ideia.