Agricultura Urbana

Claudia Visoni é jornalista, ativista ambiental e usa a comunicação e o engajamento político nas redes sociais para defender as águas, as árvores e a comida. “Sem isso a gente não vai a lugar nenhum”, diz Cláudia. Ela também é conselheira de meio ambiente da subprefeitura de Pinheiros, coordenadora de trabalho da agricultura urbana e arborização e atua na comissão gestora da lei dos orgânicos na merenda, tudo em São Paulo, capital. Nesta entrevista, Claudia fala sobre agricultura urbana, novas maneiras de viver e as representações sociais ligadas às plantas.

Por Maíra Bueno | 05/12/2016.

PA – Como começou o seu interesse pela agricultura urbana?

CV – Eu caí no ativismo da comida pela via das questões macroambientais. Sou jornalista e sempre me interessei por essas questões. Em 2008, tive a percepção de que o colapso está aí e precisamos buscar novas maneiras de viver. Nessa época, comecei a plantar comida em casa e notei que o conhecimento da produção de alimento e o autoconsumo estava indo embora com as gerações mais velhas. A urbanização do Brasil é recente, então hoje quem tem 70, 80 anos em São Paulo ou era camponês ou tinha uma horta no fundo de casa. Mas depois da segunda guerra isso foi desaparecendo. Esse movimento da agricultura urbana trás de volta essas práticas. Mas nós somos uma agulha no palheiro. Na verdade o personagem importante nessa história é o camponês.


PA - Você tem um canal de comunicação? Como você faz o seu trabalho?

CV – Eu me defino como veículo: quero aprender o máximo e transmitir para o maior número de pessoas. Às vezes me chamo de hacker do sistema. Tento entrar pelas frestas do sistema, usar o mínimo de energia para tentar buscar o máximo de resultado. Então tenho um blog e uso meu perfil no Facebook para postar tudo que julgo importante. Eu não estaria nas redes se não fosse por uma razão política. Também fundei, junto com outra jornalista, o grupo dos Hortelões Urbanos e depois, a Horta das Corujas. Hoje sou voluntária em hortas comunitárias e ativista do alimento em diversas frentes.


PA – O que são os Hortelões Urbanos?

CV - O grupo tem mais de 60 mil pessoas atualmente. De dentro do grupo nasceu a Horta das Corujas e diversas outras hortas comunitárias, não só em São Paulo, além de uma série de outras iniciativas que a gente não fica contabilizando. Mas os Hortelões Urbanos não existem como movimento, como coletivo, não existe institucionalmente. Os Hortelões Urbanos não têm representação, nem autoridade, chefe, diretoria.


PA – Como começou o grupo dos Hortelões Urbanos?

CV - Uma amiga postou no Facebook uma chamada para um workshop em São Paulo onde a jornalista Tatiana Achcar ia falar sobre a viagem que ela fez pelo mundo pesquisando agricultura urbana e agroecologia. Eu já plantava nessa época. Fui ao evento, ouvi toda apresentação da Tatiana e comecei a contar as coisas que estava fazendo no meu quintal. Nesse dia também conheci a Suzana Priz e o Lucas Ciola. Eles falaram da Cooperativa de Semeadores e fiquei interessada em fazer parte daquilo. Começamos a fazer várias reuniões e dei a ideia de fazermos uma horta comunitária na Vila Madalena. Esse assunto estava em evidência na imprensa internacional e aquilo poderia ser uma pauta para trazer visibilidade para o movimento maior que é dos orgânicos e da agroecologia. A horta naquela ocasião não foi pra frente, mas foi assim que começou a articulação em torno dos Hortelões Urbanos.




PA – Qual foi o impacto que você sentiu ao começar a plantar a própria comida?

CV - Quando comecei a plantar na minha casa, em 2008, todo mundo achava que estava louca. Não fazia o menor sentido... eu, no quintal, gastando aquele monte de tempo para produzir uma alface que no supermercado custa R$3 reais. Não faz muito tempo isso, mas na época não tinha repertório na sociedade para esse tipo de coisa. O pessoal de classe mais desprivilegiada financeiramente sempre fez isso e continua fazendo. A periferia está cheia de gente plantando, mas o esquema classe média é aquela coisa que não faz sentido. Aí amigo, família, vizinho todo mundo acha ridículo. Ainda mais porque você começa sabendo nada, as plantas são raquíticas, você comete um monte de erros, se confunde para caramba e todo mundo acha ridículo.


PA – Você não tinha nenhuma familiaridade com agricultura?

CV – Não. Mas em 1999 eu estava no supermercado Pão de Açúcar – nessa época eu não conhecia ninguém do movimento agroecológico, a Feira de Orgânicos da Água Branca já existia, mas eu não conhecia – e no Pão de Açúcar eu vi uma bandejinha de isopor com alimento orgânico. Peguei o telefone que estava impresso na embalagem e liguei. Era do Sítio Boa Terra. Quem atendeu foi o Joop, holandês e criador do sítio. Eu dizia “estou tão feliz, moro em São Paulo e vocês estão fornecendo orgânicos no supermercado! Que maravilhoso! Vocês são incríveis! Obrigado por existirem!”. Ele deve ter me achado sem noção e passou para outra pessoa, o Ricardo, que trabalhava com ele, agrônomo. Eu continuei dizendo o quanto eles eram incríveis, ele já ia desligar o telefone quando eu disse que era jornalista de São Paulo e perguntei se tinha alguma coisa que poderia fazer para ajudar. Ele falou: “a gente está começando um sistema de delivery, cestas orgânicas que ninguém conhece e estamos precisando de distribuidor”. Eu era diretora de redação da revista Boa Forma na época, tinha um caderno na revista que só circulava em São Paulo e fiz uma matéria assim: “Quer trabalhar com alimentação saudável e ainda descolar uma grana? Tem o sítio Boa Terra que está precisando de distribuidores de cestas orgânicas em São Paulo e o telefone é esse, se você estiver a fim, vai lá.” O Joop me ligou, disse que o telefone não parava de tocar e me convidou para ir visitar o sítio. Peguei minha família e fomos passar um fim de semana lá. E foi uma coisa incrível porque eu nunca tinha visto de onde vinha a minha comida!


PA – O seu interesse pela produção de alimentos começou pelo consumo de orgânicos então?

CV – Pode-se dizer que sim. A primeira pessoa que me falou de agricultura urbana foi o Joop. Eu nunca tinha ouvido essa expressão. Estávamos conversando quando ele disse: “Claudia, mas você pode plantar na sua casa.” Eu achei estranhíssimo! Na hora nem respondi, mudei de assunto porque aquilo não fazia parte do meu repertório. Mas depois de uns anos as peças começaram a se juntar. Eu pensei: “nossa, o Joop tinha razão!” O Sítio Boa Terra também fazia um informativo semanal sobre questões ligadas a orgânicos, segurança alimentar e ao longo de todos esses anos eu escrevi vários artigos para eles e li muitos depoimentos deles, que são agricultores desde sempre, vem de famílias de camponeses da Holanda. A minha formação veio por aí.


PA – A rede de relações então potencializa esse movimento de agricultura urbana?

CV – A gente fala desse novo movimento de agricultura urbana em São Paulo, mas na verdade, a agricultura na cidade nunca desapareceu. Outro dia descobri uma micro horta na minha rua, que eu nunca tinha visto. Então a agricultura urbana vem sendo um movimento de resistência das pessoas que participaram desse êxodo rural, gente em geral mais velha, muito simples. Porteiros, vigias, taxistas, empregadas domésticas... Pode reparar que ao lado do ponto de táxi ou da guarita do prédio muitas vezes tem planta medicinal, plantas sagradas, comigo ninguém pode, arruda, babosa e até umas plantinhas que dá para comer. Eles plantam, mas sempre muito escondidos e de uma maneira que só quando eu abri o meu olhar para isso é que fui perceber. É uma maneira recolhida de quem não é hegemônico na sociedade e que planta para ninguém perceber. Na Horta das Corujas, por exemplo, tinha um vigia, que hoje já não está mais lá, mas quando a gente começou, ele bem deveria achar tudo ridículo porque a horta que ele tinha no terreno baldio em frente à Horta das Corujas era muito maior e muito mais bem feita do que a gente estava fazendo. E demorou um tempo para ele dizer: “vem ver as coisas que eu planto”.


PA – Mas as redes que surgem na Internet, por exemplo, tem possibilitado uma conexão com maior número de pessoas em torno dessas atividades?

CV – A Internet está sim potencializando o movimento entre a classe média: pessoas mais jovens, pessoas com uma vontade de atuar politicamente fora da política tradicional. A Internet também está potencializando a conexão desse novo movimento de agricultura urbana que surge desse impulso com quem está na periferia batalhando a um tempão. A Regiane Nigro, que faz parte do MUDA (Movimento Urbano de Agroecologia) e trabalha no Instituto Kairós, por exemplo, faz um trabalho lindo com os agricultores de São Mateus, na zona Leste. Muitas pessoas desse movimento de agricultura urbana, incluindo eu, nós temos sambado para fazer essas conexões. Então hoje uma das coisas mais bacanas desse movimento é que a gente está super irmanado com essa galera que é agricultor urbano de verdade. O interessante é que os primeiros que entenderam onde a gente queria chegar, sem muita explicação, foram os agricultores da periferia. Eles nunca desrespeitaram ou desautorizaram o nosso movimento. O próprio movimento ambientalista não compreende a importância das hortas comunitárias. Já escutei gente de ONG grande dizendo que não entende por que iniciativas como as hortas comunitárias estavam tendo mais repercussão do que as próprias atividades promovidas por eles.


PA – Como funciona a Horta das Corujas? A comunidade está de fato envolvida?

CV – É difícil essa coisa da horta comunitária... Perdeu-se a noção do que é o cultivo da terra. Isso requer um trabalho diário. Cuidar de uma horta começa com o plantar. Mas o plantar é o mesmo que dar à luz a uma criança, ter filho é ir muito além do momento. Você deu à luz e depois vem o trabalho de todo dia. Então aprofundando um pouco essa questão, pensando no século XX, na história dos fluxos, do movimento sobre os territórios, todo mundo se desconectou do território. E agricultura é uma coisa que a gente faz no território. É por isso que não estou na periferia fazendo agricultura urbana, atuo no território que habito. Estou com o meu compromisso aqui no meu quintal e na Horta das Corujas. Se eu não regar as minhas plantas todo dia de manhã, em um dia elas morrem.


PA – Imagino que essa questão de pertencimento ao território é quase um paradoxo para quem vive em uma cidade como São Paulo...

CV – Sim, isso mudou minha vida! Isso me causa problemas ainda hoje na classe média. O maior bullying que sofro atualmente é por não gostar de viajar. Você não pode falar isso na classe média. Para você ser livre, moderno, conectado, você tem que estar sempre em movimento: da cidade para o sítio, do sítio para a casa da praia, da casa da praia para destinos mais longos, as viagens de trabalho, as viagens internacionais. Quando vai chegando fim do ano todo mundo só fala em viagem e sempre surge a pergunta “e você, para onde vai viajar?”. Eu penso nas plantas, na horta de casa, na Horta das Corujas e está tudo um caos. E respondo: “então, acho que eu não vou viajar”. Nossa! Aí começa... me chamam de coisas totalmente absurdas por causa disso. Mas no meu dia a dia eu tenho um trabalho concreto que é ir lá e aprender, eu ainda estou aprendendo a agricultura.


PA – E a ideia para montar a Horta das Corujas, como surgiu?

CV - Surgiu nos Hortelões Urbanos. Uma pessoa – que depois nunca mais apareceu – começou a jogar pilha na moçada falando “galera, vamos fazer uma horta comunitária, vamos ocupar o espaço público?” e a galera “yes, vamos!”. Mas foi sumindo todo mundo. Nesse momento eu conheci o André Biazoti, que hoje também é do MUDA. A comunicação era só virtual e um dia marcamos uma reunião. Até deu briga porque tinha uma turma que queria fazer a horta perto do Centro Cultural São Paulo e uma turma que queria na Vila Madalena, mas a turma da Vila Madalena era mais numerosa. A gente marcou a reunião na padaria. Ninguém se conhecia. O primeiro que chegou escreveu no papelzinho Hortelões Urbanos e aí sentaram umas 10 pessoas em uma mesa para pensar “como é que a gente vai fazer isso?”. Começamos a fazer reuniões, algumas foram em casa, para gente escrever um projeto de horta para apresentar à prefeitura. Mas as reuniões começaram a ficar muito chatas, o relatório tinha 30 páginas e um dia uma das participantes disparou: “se continuar assim, só vamos fazer a horta daqui 30 anos, foda-se, vamos fazer na base da guerrilha!” Aí alguém virou e disse: “tem uma praça grande ali perto de casa, Praça das Corujas, lá é um bom lugar!”.


PA – Vocês fizeram na base da guerrilha mesmo?

CV – Não... uma amiga, que não tem nada a ver com esse grupo, me apresentou à Madalena Buzzo, que mora em frente à Horta das Corujas e tem um papel ativista no bairro. A praça tinha sido inaugurada pela prefeitura, mas ficou acumulando lixo. A Madalena começou varrendo a praça e hoje ela é uma referência ali como líder comunitária. Ela era conselheira do Meio Ambiente e também é ativista da compostagem. Então havia uma composteira experimental que foi colocada na praça através da Secretaria do Verde. O primeiro seminário de compostagem feito pela prefeitura – e que depois virou política pública – aconteceu em fevereiro de 2012 na câmara. E fui conversar com a Madalena para pegar esse caso e levar ao seminário. Quando estava saindo da conversa eu disse: “olha Madalena, não estranha se vocês começarem a ver umas couves, uns pés de salsinha, tem um pessoal dos Hortelões Urbanos a fim de fazer uma horta comunitária na praça, mas esse negócio de entrar em contato com a prefeitura é muito complicado, tem muita burocracia, não vamos conseguir nunca, então vamos fazer assim mesmo”. Ela disse que ia enviar um e-mail para o subprefeito e ele falou “legal!”. No que ele falou legal, a Madalena também gostou da história e nós começamos a fazer. Só que aí entra os “atrapalhantes”. Porque ali é um bairro chique e a vizinhança começou a ficar puta, começou a xingar a gente.


PA - Porque a vizinhança não queria a horta na praça?

CV - Porque isso mexe profundamente com a divisão social do trabalho, a negação da nossa raiz camponesa. Sempre tinha umas senhoras que iam xingar a gente de porca! Um dia a gente estava lá com nossas roupas simples e um uma das senhoras que gostava de xingar a gente perguntou onde eu morava. Eu respondi em Alto de Pinheiros e ela falou: “além de tudo você é uma palhaça, porque você não precisa dessa alface aqui!”. Essa senhora também disse que eu não poderia estar na praça porque aquele espaço era apenas para quem morava ali ao redor. Então na cabeça dela só as pessoas que moravam em frente poderiam usar a praça. Enfim, elas achavam que era um absurdo a gente fazer uma horta porque ia atrair mosca, barata, rato e mendigo. Então é isso, o medo de que o espaço público seja ocupado, o higienismo, o medo do pobre....


PA – Onde fica a Horta das Corujas?

CV - A Horta das Corujas fica entre a Vila Madalena e a Vila Beatriz. Aquele lugar é um lugar diferente dentro da cidade. Eu conheço aquele lugar desde os anos 60, cresci ali perto. Lá antigamente era Mata Atlântica, depois virou pasto e nos anos 60 virou uma favela. No começo dos anos 70, a favela foi removida e ficou um senhor que ocupava o lugar, Seu Felipe. Ele tinha uma fazendinha lá. Quando eu era adolescente, andava com o meu cachorro ali em frente e é um lugar onde o rio é aberto, tinha a fazendinha do Felipe e eu ficava boquiaberta de ver aquele lugar no meio de São Paulo. O Felipe foi desalojado e virou uma praça. O nome da praça era Dolores de Ibarruri, que era uma militante da guerra civil espanhola. A praça foi revitalizada, reinaugurada e a Madalena Buzzo passou a cuidar da praça. Nós escolhemos um canto menos visitado da praça porque era perto da composteira e porque a gente não queria atrapalhar para fazer a horta, inclusive a horta é em um lugar meio úmido e enlameado. E hoje nosso canto é o mais visitado da praça...


PA – Quem cuida da horta?

CV – Em geral, tem mais mulheres cuidando da horta. Todo esse trabalho é voluntário. Vizinho da praça não tem ninguém. São mais pessoas do bairro mesmo. Eu, por exemplo... é a praça mais perto da minha casa. Se for a pé, eu levo 15 minutos e de carro, 5 minutos. Nós fazemos muito mutirão e temos uma escala de regas, são umas 8 pessoas que vão lá regar a horta. São poucas pessoas que estão comprometidas com a horta. A horta poderia ser mais bonita, produtiva, mas falta gente para cuidar.


PA - E a distribuição dos alimentos, como é feita?

CV - É livre. O espaço da horta é muito contra hegemônico em diversos aspectos. Lá dentro não existe dinheiro, hierarquia, divisão social do trabalho. Qualquer pessoa pode colher... a gente tem um problema que é roubo de muda. Tem gente que vai na horta para roubar mudas e montar seus jardins e suas hortas, mas paciência, faz parte! A colheita é livre e a gente tem que educar as pessoas para entender que isso é um ensinamento da economia da abundância, que se todo mundo cuidar e ninguém roubar vai ter para todo mundo. Não precisa se desesperar para se apropriar das coisas! Mas é um processo e não fomos educados para isso. Outro dia tinha um tomateiro lindo e alguém tirou os tomates ainda verdes. Eu vi o tomate mordido no chão! O medo da pessoa que outro fosse colher o tomate era tão grande que ela estragou o tomate.


PA - O que vocês plantam lá?

CV - A horta tem 800 metros quadrados. Temos mais de 200 plantas diferentes, muitas não convencionais. As plantas não convencionais ninguém conhece, então precisamos educar os voluntários eventuais e a comunidade do entorno dizendo que não é para sair arrancando planta da horta. Já aconteceu muitas vezes da pessoa olhar o canteiro e falar “nossa, que bagunça! Quanto mato!” As pessoas hoje em dia só reconhecem alface, tomate e cenoura. Então aquilo tudo é comida ou erva medicinal, mas muitas pessoas nem sabem. Agora estamos colocando placas nas plantas e explicando: “se você é turista ou usuário eventual, não saia arrancando plantas, faça outro serviço que não seja esse!”


PA – A horta precisa de financiamento para existir?

CV – Nós fizemos uma “vaquinha” no começo da horta, esse dinheiro está com a Madalena, tesoureira da horta. Devemos ter uns mil e tantos reais, há não sei quanto tempo. Como a gente deixa as ferramentas lá, de vez em quando roubam e temos que comprar novas. Uma enxada custa R$40. Às vezes, precisamos plastificar umas placas, isso custa mais R$40. Muitas vezes sou eu quem faço essas compras... Nós temos caixa! O problema da horta não é falta de dinheiro. Não tem muito gasto e estamos aprendendo a criar riqueza a partir de quase nada. Já foi gente lá tentando oferecer dinheiro, patrocinar a horta. Nós sempre respondemos: “patrocina com o seu trabalho, quer pegar uma enxada?” Isso sim é altamente revolucionário na nossa sociedade.


PA – Que tipo de sementes e mudas vocês usam? E o adubo, é tudo da compostagem?

CV - Tem de tudo. Tem semente de pacote, semente de plantio direto, eu faço muda aqui na minha casa, tem gente que compra muda na CEAGESP, muda trocada em feiras de trocas de sementes, tem planta que nasce sozinha... A compostagem é feita com as folhas da praça e esterco de cavalo. Aliás esse é um trabalho super importante e muito difícil, que é ir lá na Água Branca buscar aqueles sacos pesados de esterco para levar para a horta.


PA - Tem algum problema de praga? Como vocês fazem com as formigas, por exemplo?

CV – A produção agroecológica não tem problema de formiga! A formiga precisa de matéria orgânica no solo, então se a formiga está comendo as plantas que a gente plantou, é porque não tem mato suficiente, tem que ter mato, um monte de palha no solo. Pronto! Aliás está cheio de formiga na horta, mas elas não comem a nossa comida. Agora agrotóxicos e venenos não entram. Às vezes, tem gente que coloca calda disso e daquilo, mas praga é sintoma de desiquilíbrio ecológico. A horta precisa ter bicho: vespa, libélula, joaninha, abelha, lagartixa, minhoca, aranha. Tendo isso tudo nenhuma população prolifera demais, aí não tem praga.


PA – Porque a agricultura urbana incomoda tanto?

CV – Todos os preconceitos, os fantasmas do passado da pobreza rural, da escravidão, da insegurança alimentar... quando a gente começa a mexer com isso, tocamos em camadas muito profundas das pessoas. Parafraseando a classe média: “deu tanto trabalho sair do campo e da pobreza, sair da enxada e virar arquiteto, advogado, engenheiro, comerciante que é muito assustador olhar para trás.” É isso. Nós temos um amigo na horta, ele é jovem, hoje em dia é agricultor e está mudando de vida para fazer agrofloresta no meio do mato. Ele disse que quando era pequeno a mãe dele falava assim: “estuda meu filho, que a caneta é mais leve que a enxada”. Então vem dessa herança cultural. É difícil... e na sociedade de consumo tudo tem que ser imediato, você vai ao supermercado comprar a alface, consome alface e não tem a noção do tempo que levou para a alface ficar daquele jeito. São muitas coisas.




 



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