Projeto Alimento entrevista Lucas Ciola

Ativista articula a periferia de São Paulo com hortas, banheiros secos e casas ecológicas.

Por Maíra Bueno | 24/08/2016.

Lucas Ciola é um ativista da agricultura urbana e da bioconstrução. Ele espalha hortas, banheiros secos e casas ecológicas na periferia de São Paulo como forma de articular a população politicamente. Foi secretário estadual da Articulação Paulista de Agroecologia – APA e hoje movimenta produtores rurais para abastecer a periferia com alimentos orgânicos. Para Lucas, pensar a produção de alimentos na cidade e a utilização dos recursos naturais não é apenas um exercício ambiental. Trata-se, sobretudo, de um compromisso para garantir cidadania à população.


PA – Como você começou a trabalhar com agricultura urbana?

LC – Eu tinha acabado de ingressar na Universidade de São Paulo, para estudar filosofia e começamos um grupo de estudos, chamado EPARREH - Estudos de Práticas Agrícolas e o Re-encantamento Humano. Fazíamos estudos semanais para discutir os transgênicos. Ficamos meses estudando transgênicos até que decidimos que não iríamos mais estudar o problema e sim a solução, que era agroecologia. Nessa época, uma das integrantes do EPARREH dava aula de história em uma escola pública na periferia de Embú das Artes, região metropolitana de São Paulo. E a diretora abriu a porta pra gente fazer uma horta lá. Isso foi em 2004. Ficamos três anos fazendo horta escolar, dois deles sem qualquer apoio financeiro. Foi quando começamos a integrar o projeto das hortas escolares com a Articulação Paulista de Agroecologia - APA.


PA – Interessante essa mudança de foco, parar de pensar no problema e ir para a solução...

LC – Isso levou a gente para a ação. A partir daí, foi acontecendo um monte de coisa. Em 2006, virei secretário metropolitano da APA. Fiquei como secretário metropolitano até 2009, depois como secretário estadual até 2012. Nesse contexto, o governo federal abriu um projeto de agricultura urbana dentro do Programa Fome Zero. O bolsa família era vinculado a programas de geração de renda e as famílias que recebiam o benefício tinham que se envolver em algum projeto. O governo disponibilizou uns dois milhões de reais na época para investir em projetos de agricultura urbana. E fizemos o projeto Colhendo Sustentabilidade, em parceria com a prefeitura de Embu das Artes e a ONG Sociedade Ecológica Amigos de Embu – SEAE. O objetivo inicial era implementar 3 hortas comunitárias e beneficiar cem famílias durante 2 anos. Ao final, implementamos 17 hortas comunitárias e envolvemos trezentas famílias.


PA – É possível fazer agricultura urbana com poucos recursos?

LC – Com certeza! Nós mesmos conseguimos implementar cinco vezes mais hortas do que estava previsto porque já fazíamos hortas sem dinheiro. Ficamos dois anos fazendo o Colhendo Sustentabilidade. Quando o projeto acabou, voltamos para a horta escolar. Nós, do EPARREH, nos juntamos com outro grupo, chamado HUMANATERRA, de permacultura e implementamos mais 40 hortas escolares em Embú das Artes. O projeto foi feito com apoio da prefeitura local e da SEAE, e com esse financiamento conseguimos abrir um curso para os professores, o que ampliou todo esse processo.


PA – Qual foi a reação dos professores?

LC – Antes, quando a gente trabalhava só com as crianças, os professores aproveitavam para tomar café, descansar. Mas quando começamos a focar nos multiplicadores, descobrimos que havia muitos professores interessados! A gente divulgava o curso de horta e os professores apareciam. Vinha professor hippie, ativista, professor que morava na roça, a gente ia mapeando quem era parceiro estratégico nas escolas. E vinha diretora de escola, tinha escola que mandava 4 professores e 2 merendeiras para fazer o curso. Com isso, o poder de multiplicação era enorme. A gente dava aula de compostagem e na semana seguinte o professor dava aula para 30 crianças. Em casa, as crianças ensinavam os pais a fazer compostagem. Eu descobri isso porque fui dar uma palestra em uma reunião de pais, e quando fui falar de compostagem, os pais disseram que já sabiam, as crianças tinham ensinado...


PA – Como a horta é trabalhada na escola?

LC - A horta é um espaço onde os alunos trabalham o conteúdo teórico dado em da sala de aula. A horta permite ver na prática os ensinamentos sobre química, biologia, geografia. É um espaço onde os alunos bagunceiros pegam a enxada e fazem um trabalho lindo. Eles reviram a terra rapidinho, por isso são os primeiros a trabalhar na horta. Quando possível, a gente também tenta fazer educação ambiental com as merendeiras. Sempre tendo em mente Paulo Freire e a construção coletiva do conhecimento. Numa ocasião, por exemplo, levamos ervas medicinais para trabalhar com faxineiras, merendeiras, professores e diretores. No final, as faxineiras e merendeiras deram uma aula sobre ervas medicinais. Nesses momentos, invertíamos a hierarquia escolar.


PA – Então a horta é mais do que apenas um espaço de plantio...

LC – A horta é usada como ferramenta de formação política. Usamos a horta para praticar a democracia participativa, para que as pessoas atuem politicamente todos os dias na hora de decidir o que fazer nos bairros delas: o que fazer com os espaços ociosos, com o lixo orgânico, com os recursos locais. A gente tenta trazer essa noção de cidadão responsável pelos seu espaço na cidade através da horta.


PA – Você usa uma metodologia específica, como funciona?

LC – Nesse projeto com os professores, em especial, tive liberdade para fazer do jeito que queria. A gente começava o curso com alongamento, depois vinha o bate-papo, o lanche e só então ia para a horta. O importante era mostrar para o professor que a horta é uma ferramenta para facilitar a vida deles, para reduzir o trabalho deles em sala de aula.


PA – Qual foi a repercussão do curso?

LC - O curso era focado nas escolas de Embú das Artes. A maioria das hortas que implementamos continua ativa até hoje, cinco anos depois que o projeto foi encerrado. O curso também recebeu muitos professores dos municípios ao redor: Taboão da Serra, Cotia, Juquitiba, Itapecirica da Serra, São Lourenço, tiveram casos excepcionais de professores de Peruíbe, ativistas da Bahia... enfim, teve uma procura enorme, fila de espera. Acho que foi um momento importante para divulgar agricultura na cidade.


PA – E as comunidades, acolheram bem as hortas?

LC - A horta escolar tem um impacto visual gigante, muda a paisagem. O aluno passa pelo terreno baldio, cheio de lixo desde que nasceu e de repente tudo aquilo se transforma em alimento, flor, borboleta. A gente convocava mutirões, com ajuda do violão, do palhaço, da arte e da poesia. Com isso, mobilizava 200 pessoas no bairro e transformava o lixão em um lugar encantado! Usamos muito o conceito de re-encantamento do mundo, da Antroposofia.


PA – Que tipo de alimentos são plantados?

LC – Tudo é decido em conjunto. Então a primeira coisa para montar uma horta é fazer um levantamento com os participantes, saber o que eles gostam de comer e o que gostariam de plantar. Tem a questão financeira também. Se você vai fazer uma horta de 10 metros quadrados e tem apenas um saco de adubo, a gente sugere um canteiro adubado pequeno para colocar as plantas mais exigentes, e no resto do terreno afofamos a terra, jogamos as folhas que vão apodrecer e virar adubo e colocamos plantas mais rústicas, que não precisam de muito adubo, nem de muita rega, como girassol, feijão, milho, abóbora. No canteiro adubado colocamos alface, tomate, plantas mais exigentes.


PA – E quando não tem adubo?

LC – A gente coloca feijão, milho, abóbora. Se for inverno, tremoço. São as plantas pioneiras. Elas também fazem a adubação verde. Depois de colher as sementes, a gente pisoteia o galho e a folha para apodrecer mais rápido e começar a recuperar o solo. Isso atrai borboleta, minhoca, vai melhorando a biodiversidade do lugar. O importante é implementar a horta na medida do terapêutico. Mexer com a terra, manipular as plantas é terapêutico. Tomar um chá de cidreira depois da horta é terapêutico. Então e gente tenta fazer uma atividade bem agradável para nunca ter a sensação de trabalho tripaliom tortura. A gente produz alimento enquanto se diverte. Inverte completamente a regra do mercado de trabalho.


PA – Como a fica a questão da água nesse contexto?

Durante o projeto da horta comunitária para o Programa Fome Zero, eu comecei a ficar inconformado com o esgoto a céu aberto. A gente precisando de água para regar a horta e toda aquela água suja ao redor. Então comecei a estudar tratamento de água. Desenvolvi um sistema para filtrar água da cozinha e usar na irrigação. Depois fui para Israel e Jordânia aprimorar meu conhecimento em filtro biológico. Ainda não consegui implementar muitos filtros, porque é um projeto radical trabalhar com água suja. Poucas instituições tem abertura para isso. Mas já temos feito alguma coisa na periferia...


PA – Então além da horta, existe todo um trabalho de uso sustentável dos recursos?

Esse trabalho começou porque levamos um curso de permacultura para um assentamento do MST e um participante, que já era mestre de obras, virou bioconstrutor. Junto com ele, montamos uma cooperativa de bioconstrução, chamada IKOBÉ. Fizemos uma parceria com o Escritório Piloto da USP, que é um escritório de engenharia voltado para engenharia social e através dessa parceria, implementamos uma estação de tratamento de água no assentamento do MST e dois banheiros secos, em uma ocupação de sem-teto e em uma aldeia guarani. Devemos implementar mais banheiros secos na aldeia indígena e duas estações de tratamento no assentamento.



PA – Qual o resultado desses projetos para a periferia?

LC – Depois de vários anos que o projeto tinha encerrado, fui participar de um evento em um bairro na divisa de Taboão da Serra com Embú das Artes, chamado São Judas e vi uma horta no meio da favela. Fiquei sabendo que era dos moleques pra quem a gente dava aula de educação ambiental. O projeto tinha dado certo! Sempre batia uma dúvida. Será que estamos sendo assistencialistas, será que eles estão captando o que a gente reproduz? me perguntava. Quando vi que a molecada fez a horta sem patrocínio, sem ONG, projeto de extensão, sem nada, percebi que conseguimos. Chegamos em um modelo que a comunidade pode replicar sem criar vínculo de dependência com ONG. Que aplicando bem ou mal, vai ter bons frutos, vai revitalizar a paisagem.


PA – E eles implementavam do mesmo modo que vocês?

LC – Não, a molecada tinha aprimorado nossa metodologia! A gente começava alongando com yoga, construía a parte teórica com bate-papo, depois ia para prática, fazia mutirão, no fim encerrava com música. Sempre tinha essas quatro etapas. Os meninos criaram outra lógica. Eles ligavam o sound system tocando rap ou reggae e começavam a mexer na horta. Enquanto isso, uns iam grafitando, outros ia fazendo rima, free-style. E aí revezava. O da horta ia para o grafite, o do grafite ia para o microfone, o do microfone ia para a enxada. Iam fazendo tudo ao mesmo tempo. Faziam a horta interagindo com o grafite, o carinha do grafite cheirando a flor da horta, ia criando umas linguagens misturadas. Tudo muito legal!


PA – Essa molecada está organizada?

LC – Hoje, esses grupos estão organizados pela PERMAPERIFA. Nesse mesmo evento, eu encontrei um amigo que também começou a fazer horta em Perus, na zona norte. O pessoal de Perus juntou com o pessoal do São Judas e fizemos um encontro de permacultura na periferia. Marcamos uma data, divulgamos no face e apareceram mais de 30 grupos interessados. Daí formamos a PERMAPERIFA. Os grupos tem esse perfil: se tiver patrocínio trabalha, se não tiver, trabalha também. É um projeto que não depende de dinheiro, a fruta que a gente come já tem a semente que a gente precisa, a folha do quintal vira adubo.


PA – Como funciona a PERMAPERIFA?

LC – A PERMAPERIFA é uma rede. Nos encontramos de dois em dois meses, porque atravessar as periferias de São Paulo, sair da Zona Leste para ir ao extremo da Zona Oeste é uma viagem e custa dinheiro. Sempre vamos em alguma periferia dos membros que participam da rede e decidimos o que será feito a partir da demanda apresentada pelos participantes. Nos encontros, fazemos o mutirão de manhã, almoço natureba e à tarde assembleia, para decidir quando e onde será o próximo encontro. Bimestre que vem é zona sul. Eles precisam de uma cisterna, então vamos levar a cisterna. Outra vez fomos em Itaquera e levantamos metade de uma casa com superadobe, bioconstrução. Funcionamos como uma máquina de regeneração.


PA – Esse trabalho gera uma renda aos participantes da rede?

LC – Nós montamos horta e damos palestra para gerar renda. Já demos palestra em todos os bairros de São Paulo, Mogi, ABC, Jundiaí, fomos para o litoral, Ubatuba, São Vicente, trabalhamos em FEBEM, em ONGs. Damos palestras em colégios bilíngues de elite. Assistência técnica em mansão do Alphaville. Então a gente trabalha com essa política de não ter fronteira, na solidariedade, ao mesmo tempo sem medo de mexer com dinheiro, não faz restrição do público. A gente tenta capitalizar com uma estratégia Robin Hood, cobra caro de quem pode pagar e não cobra de quem não pode.


PA – Tem alguma relação com o Movimento Urbano de Agroecologia de São Paulo – MUDA-SP?

LC – A Suzana, que articulou o MUDA – SP, fez nosso curso de hortas escolares em Embú. Nos juntamos a ela para formar a Cooperativa de Semeadores, em 2009. A Cláudia Visioni, dos Hortelões Urbanos, também estava junto. No final, o movimento juntou 20 instituições parceiras. A ideia inicial era fazer um evento por ano no Conjunto Nacional para divulgar alimentação saudável. Depois resolvemos fazer horta comunitária no centro de São Paulo, com a classe média, para incentivar as hortas da periferia a continuarem crescendo.


PA – Mas é preciso que a classe média faça horta para a periferia aderir? Não foi exatamente o contrário que aconteceu?

LC – É que nessa época a expansão de horta comunitária na periferia meio que tinha se esgotado. As populações de baixíssima renda, as crianças, alguns professores, o público de CRAS e de UBS, hipertensos, diabéticos aderiam às hortas. Mas os jovens não. As donas de casa também tinham muita resistência para mexer com a terra, plantar, comer comida natural. Aí saiu a notícia da primeira-dama dos Estados Unidos, Michele Obama, fazendo horta na Casa Branca. E achamos que era uma boa estratégia mostrar a horta como estilo de vida. O grupo do São Judas, por exemplo, quando eles começaram já tinham aquela base de educação ambiental que a gente ensinou. Mas eles montaram o grupo Horta di Gueto só depois que entraram para o Hortelões Urbanos, nesse contexto do MUDA. Então começou um diálogo centro-periferia via Facebook com esse tema de horta muito interessante.


PA – As hortas comunitárias conseguem suprir a demanda local de alimentos?

LC - A horta comunitária é o jeito mais fácil de acessar orgânico na periferia. Mas agora queremos avançar. Estamos distribuindo alimento da reforma agrária. Também queremos trazer o produtor agrícola para vender na periferia. Porque só horta comunitária não abastece a comunidade inteira. Então tem todo um trabalho de logística para baixar o preço do orgânico e comercializar na periferia com preço do alimento convencional.


PA – Como fica a alimentação de quem se envolve na horta?

LC – A horta promove uma conexão com a terra. Partimos de uma abordagem terapêutica e lúdica, de re-encantamento com as plantas. Acompanhamos as plantas crescendo, do broto até a flor. Levamos as crianças para desenhar as plantas. Criamos vínculos sentimentais com as plantas, um orgulho pela planta que foi plantada. Então quando chega a colheita, todos comem salada, até quem não gosta. Começa-se a substituir o uso de remédios pelas ervas medicinais. As crianças passam a comer fruta azedinha. Quem só comia enlatados, passa a comer frutas, verduras. Tem casos de mães que deixaram até de usar o açúcar branco... O padrão de consumo alimentar altera completamente.


PA – A horta modifica as relações com o meio ambiente e a alimentação ao mesmo tempo...

LC – Não só isso. A agricultura na cidade cria espaços de convivência e diálogo. Une as pessoas, resolve o problema ambiental e social simultaneamente. Dá para discutir política, produzir comida para as pessoas e mediar conflitos. É um espaço que valoriza o saber dos mais velhos, empodera as mulheres, onde se discute saúde corporal, cultura do consumo, distribuição de terra no país. A horta é um espaço didático.


PA – Como surgiu essa percepção da horta como espaço político-didático?

LC – Eu comecei cedo na militância. Aos 14 anos, me afiliei ao Partido Verde influenciado por minha mãe. Já trabalhei com movimentos de ocupação urbana, passei por diversos partidos, conheci várias ONGs. Na escola, trabalhei com metodologias participativas, li Paulo Freire. Participei de projetos sociais. Fui palhaço em hospital, li para crianças em favelas, conheci a periferia de São Paulo. Aprendi uma série de habilidades. Tive contato com outras classes sociais. No colégio também fiz um trabalho que era imaginar uma sociedade ideal. Grupos de cinco alunos tinham que descrever o sistema político, educacional e econômico dessa sociedade ideal. Os professores sinalizavam que era possível construir um mundo a partir da forma como o idealizamos. Que o mundo que a gente vive hoje foi sonhado por homens séculos atrás. E que estava na hora de atualizar esse mundo. Os professores mostraram a importância de sonhar com coisas melhores do que está posto hoje.


 



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