Feminismo na cozinha.

Feminismo na cozinha.

Por Maíra Bueno | 31/08/2016.

Em diversas épocas, em variadas culturas, o preparo da comida, em geral, está atrelado a uma atividade feminina. Se a gente pensar que só as mães carregam os filhos na barriga, o fato da preparação dos alimentos estar atrelado tradicionalmente ao universo feminino acaba por naturalizar essa prática.

Como se todas as mulheres já nascessem com a capacidade de fazer a comida assim como nascem com a capacidade de gerar filhos.

Não por acaso, durante o movimento feminista que aconteceu nos anos 1970, as bandeiras que mais repercutiram entre as mulheres das camadas médias foram justamente a possibilidade de negar a vinculação entre mulher e cozinha, tanto quanto a possibilidade de escolher entre ser ou não ser mãe.

Talvez seja por isso que a geração das mulheres que hoje têm por volta de 60 anos prefiram encontrar a família no restaurante do que ao redor de sua mesa no almoço de domingo. E as mulheres que ainda preparam o almoço de domingo fiquem tão preocupadas em garantir que suas filhas estudem para não reproduzirem este padrão.

Os estudos, a especialização técnica e o trabalho fora de casa tornaram-se as grandes chances para que a mulher pudesse se dedicar a outras atividades que não fossem os cuidados com a casa e com a alimentação da família.

O que vemos no Brasil atualmente, no entanto, é um contexto onde a mulher instruída, que trabalha fora de casa, continua sendo a grande responsável pelos cuidados da casa e da alimentação familiar. Muitas conseguiram romper com o fogão, mas não se desvincularam da responsabilidade sobre a alimentação da família.

Ainda são as mulheres que, na maioria das vezes, decidem o que a família vai comer, quer elas façam as compras ou não. Se não há alimentos em casa, em geral, pede-se algo ou come-se fora.

É difícil ver um homem gerenciando a geladeira e a dispensa quando há uma figura feminina ao seu lado. Mesmo que o homem saiba cozinhar. Mesmo que a figura feminina rejeite inclusive a tarefa de gerenciar a alimentação da casa.



A luta da mulher em questionar papéis tradicionais mostra-se paradoxal quando vemos que há uma disputa enorme para que a mulher possa ocupar a função de chef nos restaurantes. Que há um baita ressentimento quando há mais elogios aos homens que cozinham esporadicamente e nenhum elogio para as mulheres que se debruçam diariamente sobre as panelas.

Por outro lado, uma mulher que não cozinha é alvo fácil de crítica. Ou seja, naturalizamos uma prática cultural quando convém e disputamos o seu papel social quan do há vantagens.

Isso é representativo na medida em que percebemos o longo tempo que as Ciências Sociais demoraram para tornar a alimentação um objeto de estudo. Alguns autores explicam que isso se deve à banalidade do ato de se alimentar. Afinal, todos comem, dizem!

Mas se fosse assim, o sono, o sexo ou o próprio pensamento não seriam objetos de estudo, não é mesmo?! Oras, a alimentação demorou a se tornar um objeto de estudo porque está vinculada à mulher desde que o leite materno é o alimento do novo bebê que nasce.

Na Arquitetura tem um exemplo que ilustra como essa condição feminina está ligada à alimentação.

Em 1926, a primeira arquiteta alemã, Margarete Shütte Lihotzky, desenhou uma cozinha que beneficiava as mulheres. Tempo, conforto e trabalho definiram o projeto. A cozinha de Frankfurt, como ficou conhecida, foi construída em um número considerável de moradias da cidade. Mas definitivamente não se tornou um projeto clássico da arquitetura. Caso contrário, teríamos cozinhas mais eficientes hoje em dia!

Vemos então que o lugar do feminismo ainda é na cozinha. As tarefas envolvidas no processo de uma refeição vão muito além do preparo do alimento. A limpeza de uma cozinha envolve muito mais do que pratos e talheres limpos. Enfim, é na cozinha que as mães ensinam meninos e meninas a servir ou a serem servidos .


 



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