Hortas Urbanas SP

Hortas Urbanas SP

Por Maíra Bueno | 11/04/2017.

Estive recentemente em três hortas urbanas no bairro São Matheus, Zona Leste de São Paulo, e fiquei impressionada com a beleza e a quantidade de alimentos produzidos nesses espaços. Duas dessas hortas ocupavam as terras por onde passa a linha de transmissão de alta voltagem de energia da Eletropaulo. Todas, sem exceção, estavam rodeadas de grandes avenidas, abarrotadas de comércios, carros e ônibus, onde circulam milhares de pessoas todos os dias.


Essas hortas me pareceram verdadeiros oásis dentro da cidade árida que as rodeia. Nas hortas encontrei agricultores zelando suas plantas e consumidores batendo na porta à procura de ervas para banho, temperos, folhas para a salada, bananas, batatas e toda sorte de alimentos e ervas medicinais que ali estavam sendo produzidos.


Tinha alface, rúcula, couve, salsinha, coentro, manjericão, boldo, ora-pro-nobis, capuchinha, chuchu, batata doce, feijão jalo, maracujá, inhame, morango, abóbora, brócolis, banana, acerola, taioba, almeirão, beterraba, limão, quiabo, berinjela, peixinho, framboesa, mandioca, só para dar uma ideia!


Fiquei sabendo que hortas como essas existem aos montes nessa área. Avistei hortas de longe, de dentro do carro. Vi outras atravessando a esquina, olhando sobre o muro. Só das hortas que participam da Associação dos Agricultores da Zona Leste são 30. Mas sabe-se que há muitas outras que não estão organizadas.


Nas hortas, comi comida fresca e me encantei com as lembranças dos agricultores. Escutei estórias de outros tempos, do Nordeste, de quando esses agricultores deixaram suas terras, no início dos anos 1970, para migrarem para São Paulo. De como foi difícil se adaptar ao gosto da salsinha e de como é bom vender coentro aos conterrâneos que moram na região. Da pipoca que estourava na panela de barro com a areia fina e limpa do interior do Rio Grande do Norte. Do caruru, da torta de chuchu e de como fazer um bom feijão. Do homem que se escondeu nas bananeiras e das palhas que seriam trituradas para forrar o solo seguindo as técnicas da agroecologia. Do jovem estagiário que quer aprender na prática os macetes da agricultura na cidade.


Assim passou aquele dia. Vi muitas pessoas e plantas. Encontrei homens, mulheres e jovens falando sobre agroecologia, compostagem, orgânicos, feiras, agrotóxicos, saúde, sobre ser mulher. Aos praticantes e apoiadores da agricultura urbana, sabemos que há diversos desafios a serem superados. Mas as contribuições são muito maiores do que os problemas enfrentados.


As hortas urbanas geram renda, encurtam os caminhos de acesso aos alimentos, levam frutas e verduras às regiões desprovidas de alimentos saudáveis, promovem a segurança alimentar na cidade, ocupam espaços ociosos, protegem os mananciais.


A maior função social da horta urbana, contudo, não é material. Ainda que essas hortas ofereçam diversos serviços alimentares e ambientais, antes de tudo, as hortas urbanas são espaços onde circulam pessoas, plantas e saberes. E isso é precioso! São espaços de práticas e trocas que potencializam as informações sobre o meio ambiente, os alimentos, a cidade e seus moradores.


Agradeço imensamente à Regiane Nigro, que me levou nessa imersão. Regiane Nigro é do Instituto Kairós e vem apoiando a transição agroecológica em diversas hortas da região junto com outras Ongs. Valeu Regi!! Que o debate sobre a produção e consumo de alimentos e a articulação de novos e velhos agricultores da cidade nos levem cada vez mais próximos da radicalização total da vida na busca por mais autonomia e bem estar!






 



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