Alimentação de Risco

Os agricultores, o medo e a produção de orgânicos.

Por Maíra Bueno | 29/10/2016.

Entre 2014 e 2015 realizei uma pesquisa sobre a produção orgânica em Atibaia, distante 60 km da cidade de São Paulo e percebi que apesar desse tipo de produção estar crescendo no município – e em toda Região Bragantina, um importante centro de produção de alimentos próximo à capital, não existe um projeto local para converter a produção convencional em produção orgânica.

Provavelmente esse padrão se repete em outras regiões do estado, quem sabe até do país. De modo que é necessário começarmos a falar sobre isso! Pois o acesso democrático aos alimentos saudáveis só será possível se incluirmos os produtores convencionais nos sistemas agroecológicos e orgânicos.

No caso de Atibaia, não existe um plano de conversão porque a produção orgânica local tende a ser praticada pelos chamados neo-rurais, que são os produtores que não tem tradição agrícola. E também porque não há ainda um movimento local que defenda a conversão.

O interessante é que todos com quem eu falei durante a pesquisa de campo, entre produtores, técnicos agrícolas e servidores públicos, gostariam que o município pudesse converter sua produção rural para o sistema agroecológico e orgânico. O problema é que eles não acreditavam que isso era possível, devido à insegurança, nas palavras deles, que esse sistema de produção gerava para o agricultor.

O argumento que mais escutei era que se a lavoura fosse atingida por uma praga e o agricultor não pudesse usar veneno para conter, ele corria um grande risco de perder toda produção. O medo, portanto, era o principal fator que dificultava uma abordagem de produção e uma política local de incentivo aos orgânicos no município.

Essa questão do medo é bem representativa na medida em que aponta a falta de uma política inclusiva de orgânicos que socialize os prejuízos da produção. Mas além disso, aponta como a chamada Revolução Verde, que introduziu uma produção baseada em sementes industrializadas, agrotóxicos e monocultivos, conseguiu minar a confiança do agricultor.



A Revolução Verde distanciou o agricultor da natureza.

Se antes o agricultor tinha um conhecimento que foi passado de geração em geração sobre o solo, as plantas e os ciclos agrícolas, com o advento das novas tecnologias agro-industriais, o agricultor tornou-se apenas mais um consumidor. E como consumidor, tornou-se refém das mercadorias que viabilizam o seu trabalho.

O agricultor passou a depender de produtos comercializados por grandes empresas e de um conhecimento gerado por essas empresas para promover os conceitos e técnicas agregadas a estes produtos. Ele passou a achar que só aquele conhecimento tem validade. E tornou-se inseguro diante de um novo sistema de práticas agrícolas que exclui a sua participação enquanto sujeito ativo do processo agrícola. Com isso, o agricultor se desempoderou.

De forma que para fazer a conversão é necessário combater o medo sobre o qual operam os sistemas convencionais de produção agrícola. É preciso trazer o agricultor de volta para a prática agrícola enquanto sujeito da ação. Em especial, a conversão não deve ser vista como uma jogada de risco, mas sim como uma possibilidade real e efetiva, garantida por políticas públicas e assegurada por seguros agrícolas subvencionados.


 



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