PROJETO ALIMENTO ENTREVISTA

Gloria Araújo

As Sementes da Paixão garantem a vida no semiárido paraibano.

Por Maíra Bueno | 21/03/2017.

Na região do Cariri, considerada a mais seca do estado da Paraíba, existe uma diversidade de sementes que vêm sendo guardadas há várias gerações por agricultores e agricultoras. Essas sementes resistem ao tempo e ao clima. Elas garantem alimentos e sementes para o próximo plantio. São as chamadas Sementes da Paixão. Para saber um pouco mais sobre a importância dessas sementes, conversamos com Gloria Araújo, em Campina Grande, Paraíba. Ela faz parte da coordenação da Articulação Semiárido Paraibano e da Articulação Semiárido Brasileiro e explica como é feita a preservação das sementes crioulas em todo Semiárido Brasileiro.



PA – O que são as Sementes da Paixão?

GA - Para falar das Sementes da Paixão, primeiro temos que entender o papel que os agricultores e as agricultoras têm em relação às sementes crioulas. Aqui no semiárido paraibano, a gente chama essas sementes de Sementes da Paixão. Os agricultores guardam essas sementes e isso é uma prática que vem acontecendo há várias gerações. Na verdade, desde que existe agricultura. Os povos do campo do mundo inteiro têm essa tradição, de guardar as suas sementes para reprodução.

PA – Por que? O que a semente crioula representa para o agricultor?

GA - Para os agricultores, a semente é vida. E é vida porque ela se reproduz. Porque é alimento. Porque dá continuidade para que a produção de alimentos continue. Por isso, ela é guardada, conservada e multiplicada. Então a semente tem um valor tanto do ponto de vista de material genético como de material cultural. Por trás de cada semente existe uma história, que é a história do agricultor que cuida daquela semente, que guarda e multiplica a semente.

PA – No caso específico do semiárido, qual é a importância das Sementes da Paixão para a agricultura local?

GA - Muitas vezes, essas sementes foram guardadas pelos avós e bisavós dos agricultores. Então cultivar uma Semente da Paixão é uma forma de resistir, de um ponto de vista de valorizar as sementes locais, que são sementes adaptadas aos locais onde essas populações vivem. Isso faz com que os agricultores não precisem se submeter às sementes produzidas em laboratório, que são sementes híbridas, e que muitas vezes exigem alto uso de veneno e agrotóxicos durante o plantio.

PA – É uma luta política então?!

GA – Sim! É preciso resguardar essa prática, o conhecimento e os saberes que os agricultores têm em guardar essa riqueza. E no sentido de produzir uma vida saudável mesmo. É importante conservar essas sementes que estão livres de agrotóxicos, dos próprios transgênicos. Então guardar e preservar essas sementes é também produzir uma agricultura sustentável e ao mesmo tempo uma alimentação saudável.

PA – E o projeto dos bancos de Sementes da Paixão? Como surgiu?

GA - O nosso projeto se inspira nas iniciativas populares. As famílias do semiárido vêm guardando as sementes há várias gerações, ou seja, elas mantêm o seu próprio banco de sementes da paixão. Mas durante as décadas de 70 e 80 foram criados bancos de sementes comunitários. Têm bancos de sementes comunitários com mais de 30 anos. Eles foram criados no período das Comunidades Eclesiais de Base, que tiveram um papel importante no reordenamento político e social nas décadas de 70 e 80 em busca da redemocratização do país. Estava saindo do período da ditadura [militar] e as comunidades eclesiais de base, fundamentadas na teoria da libertação, construíram, junto com as comunidades rurais, os bancos de sementes comunitários. E aí, na década de 90 aqui na Paraíba, a Articulação Semiárido Paraibano, inspirada nessas iniciativas – familiares e comunitárias, procurou mobilizar e resgatar essa experiência e também ampliar a experiência.

PA – Quantos bancos de sementes existem hoje?

GA - Hoje são mais de 200 bancos de sementes comunitários no semiárido paraibano. Mas essa experiência também expandiu para os outros 10 estados do semiárido brasileiro. No estado de Alagoas têm as Sementes da Resistência, em Minas Gerais, as Sementes da Gente, no Piauí, as Sementes da Fartura... No total, são mais de mil casas e bancos de sementes em todo semiárido brasileiro. Desse total, 640 foram apoiados pelo Programa Sementes do Semiárido, que surgiu em 2015.

PA – Isso faz parte de um projeto maior então?

GA – Sim. Em 2015, a Articulação Semiárido Brasileiro lançou, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social, o projeto Sementes do Semiárido. Nesse período, identificamos inúmeras variedades de sementes, tanto para alimentação humana como para alimentação dos animais. Nós fizemos o mapeamento das sementes nos roçados e quintais de 12.800 famílias. Aqui no semiárido, os quintais também são lugares de produção de alimentos, são lugares onde a mulher tem um domínio. Historicamente, as mulheres cultivam plantas medicinais, alimentos e fazem a reprodução de sementes nos quintais, criam pequenos animais. Então o quintal – que em alguns lugares é chamado de “terreiro” – é um lugar de produção de alimentos, tanto de origem vegetal como de origem animal.





PA – Quais plantas tiveram maior predominância nesses roçados e quintais?

GA - Nós levantamos mais de 500 variedades de feijão macáçar, que é o feijão de corda. Dizem que se o sol nasceu e não tiver feijão para colocar na panela é porque não estamos bem né?! Então os agricultores quando acordam, se não tem feijão para colocar no fogo, eles ficam desesperados. Tem muitas variedades de milho também. Muitas plantas medicinais.

PA – Como fica a questão da segurança alimentar nesse contexto?

GA - Quanto mais o agricultor produzir no seu lugar para se alimentar, melhor! Ou seja, quanto menos depender do mercado, melhor. A semente crioula produz novas sementes: feijão, milho, mudas, plantas medicinais, frutíferas, forrageiras, melíferas e etc. Então o que é que se faz para garantir a segurança alimentar? Em primeiro lugar é preciso plantar para comer. Depois plantar para guardar, para reproduzir e para continuar fazendo a multiplicação das sementes. Assim vai garantindo a segurança alimentar, a produção de alimentos. Sobrando, o agricultor também vai acessar o mercado. Não precisa colocar sementes envenenadas, sementes transgênicas no agroecossistema, no roçado, na terra.

PA – Existe um predomínio de sementes industrializadas no semiárido?

GA - Olha, no levantamento que fizemos para o projeto Sementes do Semiárido, com as 12800 famílias, nós perguntamos qual era a origem dessas sementes e a maioria vinha de sementes que circulavam na própria comunidade. Os agricultores têm muito a prática de trocar o material genético. Mas tem também as sementes que vêm de fora. A gente sabe que a influência das sementes comerciais é muito forte, não tem como criar uma barreira. Os agricultores acessam as sementes híbridas, sementes transgênicas como as do milho. Porém, cada vez mais a gente vem trabalhando na perspectiva de recuperar as sementes de variedades locais, de multiplicar essas sementes.

PA – Por que é necessário recuperar as sementes crioulas?

GA – Durante esse levantamento para o projeto Sementes do Semiárido, nós escutamos muito “ah, essa semente eu perdi 5 anos atrás, 10, 15 anos!” ou então “ah meu pai cultivava”. Com o projeto das sementes, estamos contribuindo para os intercâmbios das famílias camponesas. Isso tem feito com que ocorra tanto a troca de conhecimento como a troca de material genético. Esse trabalho também está contribuindo para que os agricultores rejeitem cada vez mais as sementes transgênicas e as sementes híbridas envenenadas, as sementes que são produzidas em laboratório e que nem são sementes, são apenas uma mercadoria.

PA – Qual a diferença entre uma semente mercadoria para uma Semente da Paixão?

GA – Uma semente que é mercadoria planta no máximo o segundo ano. Enquanto que as Sementes da Paixão, as sementes locais, elas se reproduzem por muitos e muitos anos. É do tempo dos bisavós, então tem uma resistência maior, estão inclusive adaptadas ao lugar onde elas são reproduzidas, neste caso, estão adaptadas ao semiárido.

PA – E como fica a relação com as sementes que são distribuídas pelo governo nos programas de segurança alimentar?

GA - Nós [da Articulação Semiárido] não somos contra o governo distribuir as sementes, mas somos contra o governo distribuir sementes que não são adequadas à realidade do semiárido. Contra o governo distribuir apenas uma ou duas variedades de sementes. Pensar a segurança e a soberania alimentar é pensar a diversidade da produção de alimentos. Eu não posso dizer que o feijão mulatinho é mais importante que o feijão macáçar. Em determinada região é mais importante uma variedade de feijão, uma variedade de milho. Sendo assim, é importante que a segurança alimentar seja articulada para garantir a segurança da biodiversidade local.

PA – Como a segurança alimentar está atrelada à conservação da biodiversidade?

GA – Quanto mais se valoriza a biodiversidade local, maior a probabilidade de ter alimentos, de ter sementes nas suas mais diversas formas. Tem semente que é boa para plantar em período que não é tão chuvoso e outra que é mais adaptada ao período da chuva. Isso a gente está falando em produção. A mesma coisa com o alimento, porque senão, não muda de sabor. Quando a gente pensa em segurança alimentar, tem que pensar também no cheiro e no sabor dos alimentos. Acho que isso, de fato, também contribui para a segurança alimentar e nutricional das pessoas. Diversidade sempre. Nenhuma é melhor que a outra, cada uma tem um lugar, um valor na perspectiva da segurança alimentar.

PA – Qual o papel da mulher camponesa para a conservação dessa biodiversidade?

GA - A mulher tem um papel de destaque em conservar e reproduzir a biodiversidade local e a semente tem um lugar especial nesse trabalho que ela faz. As mulheres têm um cuidado muito grande com a reprodução da vida. Não só com a reprodução da família, mas com a reprodução da vida em sentido pleno. No valor que tem a planta, no valor que têm as sementes, é destacado o papel das mulheres tanto no manejo como na conservação das sementes, do significado das sementes e a participação das mulheres no banco de sementes.

PA – E a mulher camponesa, tem sido reconhecida por esse trabalho que ela faz?

GA - Olha, cada vez mais estamos trabalhando na perspectiva de pensar o papel que as mulheres têm na produção dos alimentos, o papel que as mulheres têm como agricultoras e como guardiãs das sementes. Em 2014, nós [da ASA Brasil] fizemos um Encontro Nacional de Agricultoras e Experimentadoras do semiárido brasileiro e isso foi muito importante. Por que nós discutimos o papel delas, a questão da desigualdade entre homens e mulheres e o próprio papel de muitos técnicos e técnicas [agrícolas]... Muitas vezes, um técnico vai em uma reunião ou visita uma família e invisibiliza a mulher. Então uma das coisas que trabalhamos é a valorização da mulher, visibilizar a mulher.

PA – O que as mulheres sentem em relação a isso?

GA - Falando do lugar onde eu atuo, aqui no Cariri paraibano: nós vivemos a pior seca dos últimos 60 anos, 6 anos consecutivos de estiagem prolongada. E em 4 municípios (Cubati, Soledade, Juazeirinho e Tenório) foram as mulheres que organizaram as feiras. Ou seja, elas estavam produzindo para a família, mas a sobra de alimentos fez com que, no diálogo com a gente [da ASA Paraíba] passassem a vender na cidade. Elas já estavam vendendo alimentos saudáveis nas comunidades e aí surgiram as 4 feiras que são coordenadas pelas mulheres. São as mulheres que pegam seus produtos, sobretudo nos quintais, e estão levando esses produtos para as feiras. Então a gente percebe uma pró-atividade, protagonismo mesmo dessas mulheres, tanto dentro da casa, em ser reconhecida pelo próprio marido – claro, ainda têm muitos conflitos, mas o fato de você ter mulheres em perspectiva de superação é muito importante.

PA – Ao se institucionalizar a conservação das sementes crioulas nas próprias comunidades, há mais probabilidade de sucesso na reprodução dessas sementes?

GA – Olha, cada vez mais a gente vê que os agricultores, na medida em que essas sementes e os seus conhecimentos são valorizados, eles chegam e dizem: “meu Deus, eu não sabia que fazia algo tão especial e tão importante! Vocês é que estão me dizendo que guardar essas sementes é importante. A gente fazia isso como uma coisa natural!” Então nós percebemos uma autoestima nas famílias. A família se descobre uma guardiã da Semente da Paixão, descobre que aquilo tem uma importância muito grande.

PA – Então valorizar o papel dos agricultores e agricultoras é fundamental para garantir a conservação dessas sementes...

GA – Sim! Por que as sementes crioulas não são valorizadas, são ditas até que nem são sementes. Isso, muitas vezes, fez com que o agricultor guardasse de forma escondida, por que tinha vergonha de dizer que guardava a semente. Tem um poeta local que fala do agricultor que guardava as sementes nas imagens dos santos. A fava na imagem de Maria e o feijão na imagem de São João, São José, Santo Antônio... Então na medida em que essas populações são valorizadas, que o seu trabalho é valorizado, que as sementes são valorizadas e que produzir alimento saudável é valorizado, cria-se uma outra perspectiva!

PA – Como se faz para valorizar as populações rurais?

GA - Propiciando o encontro entre eles: a descoberta, o intercâmbio, a troca entre eles contribui para que se fortaleça essa rede de agricultores e agricultoras, guardiões e guardiãs da biodiversidade local, guardiões da semente da paixão. Isso é muito importante! E também a construção de casas e bancos de sementes: casinha bonitinha, aquisição de equipamentos, de medição de umidade, de peneira, de material para silos. Isso dá uma nova vida à comunidade no sentido também de guardar melhor as sementes, selecionar as sementes.

PA – E para frear o uso de sementes industrializadas entre essas populações? Como que faz?

GA - Nós fizemos testes com sementes de milho junto a essas famílias que trabalham no projeto das Sementes do Semiárido. Para ver se a lavoura e se o milho estavam sendo contaminados. Nós identificamos milhos transgênicos e isso fez com que a gente levasse o debate para entender como aquele milho chegou ali, entender os riscos que aquela família e aqueles alimentos estavam correndo. Hoje, a maioria do milho brasileiro é transgênico, então a família que não guarda suas sementes, a semente que vem dos seus antepassados, essa família perde a semente. E na hora que chove, vai comprar semente no mercado e pode adquirir sementes transgênicas. Então na medida em que o agricultor conserva as suas sementes, ele tem autonomia, ele se empodera.

PA – E para frear o uso de sementes industrializadas entre essas populações? Como que faz?

GA - Nós fizemos testes com sementes de milho junto a essas famílias que trabalham no projeto das Sementes do Semiárido. Para ver se a lavoura e se o milho estavam sendo contaminados. Nós identificamos milhos transgênicos e isso fez com que a gente levasse o debate para entender como aquele milho chegou ali, entender os riscos que aquela família e aqueles alimentos estavam correndo. Hoje, a maioria do milho brasileiro é transgênico, então a família que não guarda suas sementes, a semente que vem dos seus antepassados, essa família perde a semente. E na hora que chove, vai comprar semente no mercado e pode adquirir sementes transgênicas. Então na medida em que o agricultor conserva as suas sementes, ele tem autonomia, ele se empodera.

PA – O que é necessário para manter o agricultor e a agricultora do semiárido empoderados?

GA – Precisamos cada vez mais manter um diálogo entre sociedade e estado, construir políticas públicas para a agricultura familiar. Fortalecer iniciativas que já vêm sendo desenvolvidas. Fortalecer uma política que nasça das entranhas, do lugar, que nasça da raiz. A política tem muito mais força para se fortalecer dessa forma do que quando vem de fora. Por isso é importante esse diálogo entre agricultores, agricultoras, organização social e estado, no sentido de fortalecer políticas que promovam a convivência e a agroecologia. Precisamos pensar nas mulheres e na juventude. Articular forças no sentido de favorecer uma política pública de sementes para o semiárido brasileiro. E aí, independente do governo, temos que fazer pressão e brigar por isso. Porque aqui no nordeste os agricultores precisam ter terra, água e sementes. Se não tiver terra, água e sementes, não dá para produzir alimentos, não dá para produzir em harmonia com a natureza.

*A Articulação Semiárido Paraibano- ASA Paraíba surgiu em 1993. Trata-se de uma articulação em rede de organizações que trabalham com agricultura familiar no semiárido paraibano. Hoje, a ASA Paraíba articula cerca de 300 organizações. Em 1999, surgiu a Articulação Semiárido Brasileiro – ASA Brasil que articula em rede as organizações de todos os estados do semiárido brasileiro. Dentre as iniciativas da ASA Brasil, estão o “Programa Um milhão de cisternas” e o “Programa Sementes do Semiárido”.

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