Entrevista

Trocas de Sementes e Mudas

Por Maíra Bueno | 30/08/2017.

Daniela Cuevas é organizadora de encontros de Troca de Sementes e Mudas, em São Paulo, e hoje viaja o Brasil com o grupo Semear Conhecimentos para levar informações sobre agrofloresta, permacultura, fazer oficinas e doação de probióticos e claro, incentivar a troca de sementes e mudas. Com isso, o grupo Semear Conhecimentos potencializa uma rede de trocas espalhando saberes e biodiversidade por onde passa.


PA - Como surgiu o grupo Semear Conhecimentos?

Eu organizo encontros de troca de semente e mudas em São Paulo desde 2010. Em setembro de 2015, percebi que já trocávamos mais que sementes e mudas, havia trocas sobre agrofloresta, permacultura, probióticos e tudo aquilo que envolve sementes (do semear à colheita) e assuntos relacionados. E a partir de então começamos atuar com um novo nome, levando encontros para outras cidades: Ribeirão Preto, Limeira, Piracicaba, Franca, Goiânia, Curitiba, Salvador, Atibaia, Limeira... Também nos convidaram para fazer os encontros dentro de universidades e instituições, USP, UNICAMP, SESC... Foi quando brotou o Semear Conhecimentos.


PA - O que despertou seu interesse para fazer as trocas de sementes?

Eu moro na Zona Norte de São Paulo, perto do Parque da Cantareira e comecei a pegar as sementes para plantar. E naquela época teve um projeto, do Rodoanel, que ia desmatar parte do parque. Então eu me juntei a um grupo ambientalista, Recanta, para defender a área. E comecei a colher sementes de jequitibá, pau-brasil, quaresmeira, mandacaru, pitangueira, para estudar as características dessas sementes, entender como as árvores se desenvolviam. Eu acredito que a natureza tem direitos. Por isso me envolvi cada vez mais com as árvores!


PA - Você planta essas sementes pela cidade?

A cidade tem regras e não dá para sair plantando qualquer coisa em qualquer lugar. Quando comecei a plantar, eu também atuava em outro grupo, Pedal Verde, de cicloativistas. E esse grupo tinha uma autorização da subprefeitura da região para fazer o plantio de árvores nas calçadas e praças. Foi ali que recebi a orientação de que as árvores que eu queria plantar, geralmente de grande porte, não poderiam ser plantadas nas calçadas. As árvores com frutos muito grandes, ou então que sujam a calçada. Também existe uma regra da prefeitura ligada às árvores do quintal. Se eu plantar um pé de manga ao lado da minha casa, por exemplo, e descobrir que a raiz da mangueira vai entrar debaixo da casa procurando água, e que de repente ela pode sair pelo ralo do banheiro, eu não posso derrubar a árvore, a não ser que peça autorização para prefeitura. E mesmo que eu derrube, terei que fazer uma compensação ambiental, porque a árvore não é minha, a árvore tem direitos.


PA - E o que você faz com todas essas sementes?

Eu faço a germinação em casa e assim que as sementes brotam, coloco em caixas de leite e espero atingir 30 centímetros. Depois eu troco essas mudas por novas sementes nos encontros. Algumas eu planto no quintal, algumas eu levo em sítios de amigos. E aquelas que são mudas de árvores de grande porte eu troco com pessoas que precisam fazer a compensação ambiental. Toda semente tem um motivo para mim. E eu pego para germinar todo tipo de semente por onde passo. Se estiver andando na rua, por exemplo, e achar uma árvore interessante, pego as sementes e ponho na terra para aprender como ela se desenvolve.


PA - Que tipo de sementes são trocadas no encontros?

De todo tipo! De árvores de grande porte, frutíferas, sementes alimentícias, medicinais, mudas de PANC (plantas alimentícias não convencionais). A única coisa é que as sementes têm que ser cultivadas de forma orgânica. Não pode ser semente com agrotóxico, aquelas de pacotinho que tem veneno para preservar. Não precisa ser certificada como orgânica, tem que ser livre de química! E as sementes precisam vir identificadas para os encontros. Não adianta doar uma caixa de sementes se não tiver o conhecimento de como plantar para oferecer.


PA - Quantas pessoas tem hoje no grupo Semear Conhecimentos?

Nós somos em 4 pessoas aqui em São Paulo, nas outras cidades tem seus próprios organizadores. No grupo tem um permacultor, uma pessoas de agrofloresta, uma pessoa que atua com abelhas sem ferrão e uma pessoa que faz a multiplicação dos probióticos. Como em cada cidade tem um novo organizador, é ele quem vai verificar quais são as oficinas que eles buscam, qual é a necessidade daquela cidade. Cada cidade tem um organizador, mas pode ter vários co-organizadores, os oficineiros podem ser parte destes co-organizadores ou convidados para atuar durante algumas edições.


PA - Quantos encontros são feitos por ano?

Em São Paulo, tentamos fazer pelo menos 4 encontros ao ano, mas ultimamente tem sido 1 por mês. Nas outras cidades, depende dos organizadores locais. Tem cidade que tem um encontro por ano, tem cidade que tem dois... Eu vou apenas no primeiro encontro, para ajudar a implantar. Quando chamam a gente para fazer os encontros, muitas vezes, a pessoa que está organizando ainda não cultiva sementes, faz coletas ou tem conhecimentos [sobre as plantas]. Então vamos formando essa pessoa para ser coletora, orientamos sobre plantas comestíveis, fermentação de probióticos... Essa pessoa vai adquirindo conhecimentos e começa a e se perguntar "porque tenho que comprar tudo?" ou “porque tenho que consumir alface se nós temos caruru, ora-pro-nobis, plantas que têm muito mais nutrientes”. Nós vamos fazendo com que essa pessoa comece a se interessar e queira levar adiante as trocas na cidade dela.


PA - E depois que as trocas são implementadas nas outras cidades, como funciona?

O organizador local dos encontros precisa sentir como a cidade acolheu o evento, quais foram as primeiras impressões. A partir daí montamos uma lista com oficineiros que poderiam participar dos próximos encontros. Se na primeira edição já houve uma oficina promovida localmente, por exemplo, ou algum participante que demonstrou mais interesse, convidamos para atuar conosco. A gente espera que essas pessoas se tornem os próximos oficineiros daquela cidade. A partir do momento que acontecer o primeiro encontro em cada capital, eu não preciso mais ir! Os organizadores da capital podem se locomover naquela região e levar as trocas adiante. E os encontros podem até não ocorrer nas outras cidades da região, mas as sementes vão continuar circulando!


PA - O grupo Semear é um multiplicador das trocas então?

Olha, em Jundiaí a gente tem uma pessoa que atua com agrofloresta, do Sítio Cambucá. Ele faz o resgate do cambucá e comentou que nós empoderamos os organizadores. E é um ativismo de organizadores mesmo. O organizador está ali querendo levar uma conscientização. Pra você ter uma ideia, nós doamos 9 mudas de cambucá nesses anos todos. Mas não tivemos qualquer retorno do que aconteceu com essas mudas! Quer dizer, estamos há 9 anos fazendo as trocas, mas não vemos o retorno das sementes se multiplicando, entende? Nós percebemos que as informações circulam nas cidades por onde passamos, mas o evento é de troca de sementes e mudas. E isso não ocorre do jeito que gostaríamos.


PA - Por que? O que acontece?

Quando a pessoa recebe qualquer semente ou muda, ela é orientada a entrar no grupo e buscar pelo doador para receber orientações, pra que a semente/muda se desenvolva. A semente/muda só não vinga para quem não busca orientação. Então por exemplo: eu recebi um milho crioulo vermelho dos Andes (mas poderia ter sido outro, como o indígena, o milho de pipoca multi colorido, não importa!). Levei essas sementes para trocar no grupo e uma pessoa que cultivou em Jundiaí teve êxito no plantio. Como é que ele fez? Ele se tornou um especialista, e é a ele que as pessoas deveriam buscar informação para também ter êxito no plantio. Porque nós não temos fácil acesso a esses milhos crioulos, e gostaria que as pessoas que receberam os crioulos buscassem os contatos que foram dados para não perder estes espécimes. Porém somente 4 pessoas retornaram grãos para trocar após plantio.


PA - Quem tem os milhos crioulos?

Os guardiões das sementes. Quando eles entregaram as sementes nas mãos da Monsanto, talvez eles não tivessem o indício de que essas sementes seriam modificadas. Então hoje eles seguram as sementes. A gente também tem medo... Mas toda vez que recebo uma semente, acho que ela tem que ser multiplicada. Não só de milho, mas de feijão, jequitibá, pau-brasil, de tudo! A partir do momento que tivermos uma quantidade suficiente dessas sementes em cada cidade, talvez o Cerrado volte a ser Cerrado, a Mata Atlântica a ser Mata Atlântica... A minha ética é de que é melhor ter um pouco do Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Amazônia em um metro quadrado do quintal do que em lugar nenhum!


PA - Você tem sementes do país inteiro?

Acho que sim! Eu fui para Goiás e trouxe a macaúba (nome científico Acrocomia aculeata), que é uma palmeira. Temos também a moringa oleífera, não é nativa do Brasil, mas está sendo muito usada como ração humana, porque há pesquisas mostrando que mulheres grávidas com Aids na África que se alimentaram de moringa tiveram filhos sadios. As sementes da moringa também limpam a água. Eu recebi sementes de girassol biodinâmico da França numa ocasião. Também temos milho de pipoca rajadinho roxo, é um milho que não estoura para fora, estoura para dentro. Temos tomate amarelo, que eu consegui com a organizadora de trocas de Franca. Feijão espada, a vagem dele é bem comprida, que nós recebemos na USP, no primeiro evento que fizemos lá. O milho amarelo com grãos vermelhos na mesma espiga. O milho cunha, que é um dos milhos mais procurados porque é mais forte e é um bom milho para ser cruzado. E as sementes de árvores: os jatobás, castanha do maranhão... Buriti (Mauritia flexuosa), Baru (Dipteryx alata), Cagaita (Eugenia dysenterica), Carnaúba (Copernicia prunifera), Jatobá (Hymenaea courbaril), Macaúba (Acrocomia aculeata), Maracujá da Caatinga (Passiflora cincinnata), Pequi (Caryocar brasiliense) do cerrado, Tucumã da amazônia, ja tive o Mandacaru (Cereus jamacaru), Pau-brasil (Paubrasilia echinata) de São Paulo...


PA - Os encontros são sempre realizados na zona urbana? Quem frequenta os encontros?

Sim, por enquanto todos os encontros são na cidade. E tem de tudo, da pessoa leiga que está querendo aprender e receber sementes ao produtor que está indo atrás porque sabe que estamos recebendo aquilo que ele busca. Muitos são orientados a entrar nos eventos que a gente cria no Facebook e pedir o que eles estão procurando. Nós também mandamos sementes pelos correios, para quem não pode participar dos encontros porque mora longe.

PA - Além de fazer as trocas, qual é a principal mensagem que o grupo Semear Conhecimentos deixa nos encontros?

Nós mostramos para as pessoas como podemos acabar com aquele comodismo de comprar tudo pronto. Acho que colocamos um pouco do ativismo em cada pessoa, sabe?! Do porquê temos que aceitar aquilo que aconteceu em Mariana, por exemplo. Vamos ficar de braços cruzados? Quando nós começamos a brigar por uma causa, nós aprendemos a brigar por tudo: pela escola do filho, pelo presidente do país, pelo governador do estado, uma coisa busca a outra e vamos nos tornando auto suficiente. Nos encontros, nós mostramos que é possível trocar as coisas e que quando nós fazemos as trocas, nós criamos um elo.



*Todas as imagens foram cedidas pelo grupo Semear Conhecimentos e foram feitas pelo fotógrafo Luís Carlos.



 



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